quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Vanguart Acoustic Night

Mal passei a catraca e a vi pela janela. Se eu me concentrasse o motorista se deteria até que eu a visse seguir seu próprio caminho? Aquelas mãos desenlaçaram do que parecia um nó tão perfeito nas minhas. Eu via o riacho negro preso a altura de suas costas e me perguntava se ela se viraria e me veria ali; inerte. Se perder de um amor doía tanto por não ser erro de ninguém e isso me fez sentir nas veias a urgência trágica do violino envolvida pelo trompete, a guitarra lacrimosa. Como era possível o teclado se manter tão dócil, ao que o baixo nunca esteve tão grave seguindo a bateria a conduzir crescente a um estancar seco, como a voz que me rasga a noção de tempo pensando tudo "O que a gente podia ser" - Adaptado da participação numa promoção promovida pelo Fã Clube Sindicato Vanguart promovido no dia 23 de novembro.
Foto: Helen Moraes

        Parte: Antes que pisasse no palco, nunca tinha ouvido falar no trabalho de Rodrigo Alarcon e surge aquela presença com pegada mezzo-reggae-mezzo-samba. Uma levada que, na falta de âncoras ao trabalho dele me levou ao 5 a Seco de alguma maneira. Muito simpático e desenvolto, apresentou letras repletas de bom amor e humor. Suas brincadeiras com o coração e a razão, personificações e a mescla de registros formais e informais (armaria muié cadequê...) o puseram em meu radar. O formato voz e violão foi deixando o público em sintonia com a ideia de um acústico. Embora, assim que ele partiu ainda houvesse nas cercanias da pista premium quem se espantasse: nossa! quantos instrumentos de corda!

       Entre as palmas surge o primeiro de vários gritos, "lindos". Surge também a banda ao que Hélio Flanders agradece a presença do público Que presente, hein? Mal sabiam eles que eram presente de meu natalício. Nesse sentido, quando surge Estive a sensação de familiraridade não poderia ser maior. Se aos nove eu era apresentado ao formato unplugged com o lançamento da incursão da Legião Urbana no formato, estar no Estúdio, dezoito anos depois tinha inominável sabor. A banda que me fez descobrir a existência de Cuiabá viria a contar histórias, parte dos shows que mais gosto por torná-los próximos, na sempre doce intimidade que temos para com nossos ídolos sem que muitas vezes eles saibam. ...Das lágrimas encerra com a vocalização do empolgada do público. Reginaldo acrescenta que haveriam surpresinhas, as músicas a ser tocadas não seriam as mesmas que a banda sempre tocava. Essa afirmação atiçava a curiosidade, afinal, antes mesmo da banda entrar os mais próximos do palco já haviam registrado mentalmente as dezoito canções presentes no repertório. A narrativa de Hélio corta meu divagar. "Essa próxima canção é do primeiro álbum (...) lembro que fiquei umas cinco horas trabalhando numa canção épica que se chamava Para um Marinheiro Grego. Depois dessas horas percebi que aquilo era uma porcaria. E, em três minutos, fiz essa música que ficou para o disco." Para abrir os olhos, além de um solo de David ao bandolim é arrematada com os versos nossos sonhos a caminho, menção a Bridge over troubled water? Quem vai saber?!
        Enquanto Hélio alterna do violão para o piano, a violinista Fernanda Kostchak aproveita para assumir os microfones e pede uma salva de para os companheiros de banda. Ela diz quão legal é poder olhar nos olhos, o coração, do público. O formato do show também permitiu a ela estar presente no palco o tempo todo. Reginaldo oferece a música seguinte à amiga. Helio confidencia que ainda a autoria seja partilhada a música foi essencialmente feita pelo baixista. Mesmo de Longe vem como balada lenta, num dos vários momentos em que David Dafré performou com o lap steel. Todo fim é bom pode estar no próximo álbum. Quanta expectativa. A cada audição crescem os sentidos e significados dela. Versos tais hoje já não tens a chave podiam soar como adaga a acariciar o músculo que nenhuma vez descansa. Talvez seja possível viver sem descontextualizar os versos. Não naquela hora. Outra voz se sobressai no meio da casa lotada: quando sai o próximo disco? Reginaldo sorri um "Por mim saía agora, mas não é demora; é o carinho e o cuidado com a feitura". Anunciam uma canção antiga, do tempo em que cantavam em inglês. O público cria a bateria com suas mãos em Hey yo Silver se houve instante para se sentir num saloon foi esse.
         A primeira meia hora do show encerra com uma canção "menos conhecida". Hélio a dedica a "alguém que está sempre nos shows, ele carrega o pessoal de lá pra cá, para todos os lugares" Ivan. Fica o agradecimento a ele também, afinal, não surge todos os dias uma oportunidade de ouvir Robert. Ainda mais depois de ter ouvido no show de outubro no Sesc Bom Retiro que a tão pedida canção não apareceria mais. As narrativas vanguartianas sempre oferecem possibilidades tanto aos neófitos quanto aos seguidores de longa data. Assim, o revesamento é inevitável: do segundo registro em estúdio vem Se tiver que ser na bala, vai,agora com arranjos de gaita, e depois Olha pra mim quando Hélio diz que quando a fez estava mal mas as vezes isso possibilita o nascimento de coisas boas. Canções-declaração como a que tocariam em seguida, tão logo Reginaldo chegasse ao piano. Na era da impermanência de universos compartilhados; a cidade seria a mesma dos versos de Todo fim é bom? Nessa cidade conserva as características catárticas há anos, ainda arrepia o violino. Para além disso, perceber o conforto no trompete em se permitir mais passa a impressão de ser uma música nova. Reginaldo convoca palmas para Claudinha Almeida da lojinha e para todos do sindicato. Ao fim de Pra onde eu devo ir? e Pelo amor do amor vem mais gritos do público: Hemisfério, Enquanto isso na lanchonete, Engole... A banda se abre em relação ao trabalho envolvido na preparação do repertório desnudado. Nem todas as canções pedidas virão.Quente é o medo, nova composição de Reginaldo Lincoln aparece logo depois de Demorou pra ser
          A décima quarta canção é um cover de David Bowie Space Oddity e o Vanguart expressa sempre ter tido vontade de tocá-la. Podemos acompanhar mais uma camada de referência dos ídolos fora das esferas Dylanescas e Beatlemaníacas normalmente evidenciadas pela mídia. A banda agradece a presença de Calil Barros, parte da equipe desde o início da banda. Há sempre um zelo com a citação nominal da equipe e impressiona por não soar protocolar como se vê muitas vezes. Hélio dedica a canção seguinte aos cônjuges e vice-versa. Ao primeiro acorde, todos sabem que Meu Sol raiará na noite. 

Foto: Helen Moraes

         Faço então, caro leitor ou leitora, um parentese do espetáculo - que contava já cerca de uma hora e dezessete condensadas nos quatro parágrafos anteriores - para agradecer à mesma Helen Moraes autora das fotos presentes neste post por ela ter me reapresentado ao Vanguart. Já ouvia a banda desde ver o clipe de Semáforo a primeira vez. Passei a brincar com as sétimas maiores em composições como Exaustão e Veneno e Meio-dia.  Ansiei pelo segundo álbum ouvindo a banda Major Luciana e vendo qualquer canção que sugeria um caminho que nunca se seguiu com as canções em inglês. Até mesmo abri uma conta no Facebook quando descobri que Boa parte de mim vai embora seria lançado primeiro na rede social. A melancolia misteriosa das metáforas sempre me tragou. De modo que quando Muito mais que o amor ganhou o mundo a única canção a ressoar em mim foi A escalada das montanhas de mim mesmo. Era como os fãs de Tucker Crowe repudiando o lançamento de So, where was I que não julgavam a altura de sua obra-prima trágica Juliet. Tanto sol era demais para mim. Até que, como diria o poeta, antes que eu soubesse, estávamos juntos. A ideia de ver um show no Cine Jóia a meia noite fez com que eu a apresentasse a banda. Amor à primeira audição. Ela não chegou a levar dois dias para decorar as onze faixas. O que era para ser um evento único se tornou algo mais quando, após o show, ela perguntou: quando será o próximo?! Fomos então, ao Sesc Carmo, pudemos conversar com a banda no Sesc Santo André quando avisaram da gravação do segundo DVD da banda, o que nos levou ao CCSP. Era quase como uma bola de algodão doce em que cada show levava a outro com novas nuances. Hélio ainda chegou a comentar na gravação de como casais que estavam na gravação se separavam, e o destino do disco ficava perdido. Aquele tipo de conversa que faz tanta falta quanto David Dafré cantando Get Back no bis desse mesmo show. Passamos ao Blood on the Tracks em Santana, escolhemos canções para o show no Teatro Mars, e mais! Há casais que tem uma música, quantos podem dizer essa é a nossa banda? Mesmo quando não são mais um, as reminiscências desse mapa conjunto pelas estradas de São Paulo seguirá de algum modo. Ter sentido o que é muito mais que o amor tornou meu olhar um outro. El caminho es largo, pero tenemos que seguir.
Repertório cedido gentilmente por Reginaldo Lincoln
           Mi vida eres tu diz Hélio, conta a história de "um garotinho, um mancebo em Cuiabá sofrendo e procurando alguém como ele". Além da já esperada citação à Odair José, houve a inserção do "So you think you're gonna hit me but now I'm gonna hit you back" da banda mexicana Molotov e os versos finais de Perfeição, da Legião Urbana. A banda se apresenta e Reginaldo confessa que em Cuiabá, em meados de 2002, era quase impossível encontrar gente que estivesse compondo e o encontro com Hélio foi maravilhoso, mudando a vida de todos eles. Hélio prossegue a agradecer ao público: "um show sem bateria mais alta que a voz, sem a música alta." Tanto o de Rodrigo Alarcon quanto o acústico em si "é um formato que privilegia a palavra, a canção; e isso fez o Brasil existir na música com Caetano, Caymmi, Chico, Renato (...)" e a presença do público ali, ouvindo e cantando era indescritível. Então, conta que quando estava em Cuiabá aos dezesseis, dezessete anos. Sem nada para fazer eles se tinham. Fosse para mudar o Brasil, para tratar bem as pessoas, respeitar as diferenças. No fim das contas, o amor ainda era mais importante. O violino e o clarinete recriam Semáforo numa versão que merecia ser lançada. 
        Ouvir a banda tocar algo dos Beatles, para mim, é sempre uma justiça poético-retroativa por nunca ter conseguido ver uma apresentação do projeto Vangbeats. All my loving é a penúltima canção do Acústico. Violões de seis e doze cordas, clarinete, bandolim, violino. A instrumentação da banda não deixou a desejar em relação a suas performances "plugadas". Sentir cada um dos novos arranjos permitiu um show memorável. Ainda que o texto não contemple detalhes dos fraseados novos, as canções mantiveram sua identidade com uma roupagem envolvente. Eu sei onde você está encerra a apresentação e o ano de 2016 para o Vanguart. Que venha o quarto disco!

POSFÁCIO

         Que conste nos autos o agradecimento as meninas da lojinha do Vanguart que, sempre muito solícitas, nos ajudaram a alcançar David Dafré que, por sua vez, trouxe Fernanda Kostchak para que entregássemos uma lembrancinha. Essa sinergia é muito boa e nada há que se possa dizer além reafirmar o Muito Obrigado!!!

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Uma Nova Viagem

“Talvez se resumam nisso a própria juventude, a espontaneidade, a coragem e a profundeza da vida pessoal, a vontade e a faculdade de experimentar e viver com plena vitalidade a parte natural do ser.” ― Thomas Mann
         Chove na manhã fria de Porto Alegre. Poderia ser São Paulo, também. Quando você se encontra sozinho, a geografia é impessoal. A internet também carrega essa característica: erguemos muros a nos impedir de olhar nos olhos do estranho a partilhar, conosco, viagem. Exibir gentis gestos corriqueiros parece antiquado. Ao mesmo tempo, temos nossas amizades ao alcance da mão. Com poucos toques pode-se ir do sul brasileiro ao sudoeste do Oceano Pacífico. Mesmo assim ainda pode causar estranheza ver as pessoas banhadas pela luz das telas. Narcisos imprecisos? Quando o display esmaece, sobra o reflexo.

                                 

       
        Refletir a canção Uma Nova Viagem envolve novo retorno ao passado. A temporada 2007 chegava ao final, eram os segundos de silêncio antes da explosão. Havia quem soubesse de antemão as ações, o arco a desenvolver na temporada seguinte. Vestibulares, faculdades, empregos. Para outros? Tudo em suspensão. O fim do ensino médio trazia à tona as mais bonitas mentiras professadas nas despedidas, a famosa frase vamos marcar toma de assalto lábios, corações e mentes. Àqueles poucos a arriscar sinceridade são observados de soslaio. Consideremos, os censores possuem nesse ato algo de admiração aos párias. Sejamos ternos com eles. Quando dizem como pode dizer uma coisa dessas? querem dizer não seja rude, mantenhamos este último momento ameno. Um dia nos encontraremos no Sinal Fechado, como diz a canção. O menestrel nos instrui que as coisas se transformam e isso não é bom nem mau. Sejamos felizes nessa última ilusão. Essa é uma possibilidade; podem querer dizer quisera eu dizer algo assim. Como forma de incentivo vou censurá-lo mas ele sabe o quanto o estimo... você está certa. A pessoa pode estar a ser genuínamente sincera. Não se pode presumir generalizando assim. Ponto para você.
         No meio disso nomeei a letra da nona faixa da primeira demo. Num encontro casual Fabio me disse simplesmente desatou a cantar as primeiras palavras que brotaram em seu pensamento. Queria se provar. Achava ser possível conseguir fazer uma música a qualquer momento. Sabe a sensação? Como aquela frase não sabendo ser impossível, foi e fez seja ela de Cocteau ou Twain. De alguma maneira, essa sensação de invencibilidade permeava os arredores. Em algum lugar do tempo, havia um refrão diferente. Seu único registro deve estar incrustado nas paredes da garagem que ouvia os ensaios da Falsa Modéstia. Enquanto consolidava os trechos do repertório autoral retalhei o rascunho de um poema que falava de sonhos e ele se integrou naturalmente ao contexto existencial da composição de Fabio Kulakauskas. Quando meu pai levou a demo para mostrar aos colegas da empresa, voltou com a notícia de que fora a canção que mais chamou a atenção dos, então, presentes. 
Uma Nova Viagem (2007)

Não sei se é aqui onde eu queria estar
Talvez fosse melhor se não houvesse sol
Não sei quais caminhos eu devo buscar
talvez arriscar não seja o melhor

Mas arriscar é preciso
Sobreviver também
O que não pode ser perdido
para eu ser alguém?

Vou chegar ao fim
Do sonho sem querer
Onde as incertezas
Não me levem para trás
E até lá eu sei ficarei aqui
Pois não decidi
Quem virá comigo

Mas arriscar é preciso
Sobreviver também
O que não pode ser perdido
Para eu ser alguém?

Medo de não ser
Medo de não ter
Eu preciso aceitar
Mas só me ensinam a julgar

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O Teatro Mágico

"O falso e infeliz conceito de que o homem seja uma unidade duradoura já é conhecido pelo senhor. Também já sabe que o homem é formado por um número incalculável de almas, por uma multidão de egos. Dividir a unidade aparente do indivíduo nessas numerosas figuras é algo que passa por loucura; a ciência encontrou para esse fenômeno a designação de esquizofrenia. A ciência está certa, até certo ponto, quando afirma que nenhuma pluralidade pode conduzir-se sem uma direção, sem uma certa ordem e agrupamento. Mas, por outro lado, não tem razão ao imaginar ser possível somente uma ordenação única, encadeadora, perpétua, para a multiplicidade dos egos subordinados. Esse erro da ciência acarreta conseqüências desagradáveis; sua única vantagem reside na simplificação do trabalho dos mestres e dos educadores a serviço do Estado, poupando-lhes os trabalhos do pensamento e da experimentação. Em conseqüência desse erro, muitos homens que passam por ‘ ‘normais”, e até por valiosos membros da sociedade, são loucos incuráveis, e, por outro lado, muitos que passam por loucos são verdadeiros gênios. Por isso é que completamos aqui a imperfeita psicologia da ciência com o conceito a que denominamos a edificação da alma. Aqui demonstramos aos que experimentaram a destruição de seu próprio eu que podem a qualquer instante reordenar os fragmentos e com isso conseguir uma variedade infinita no jogo da vida." - Hermann Hesse, O Lobo da Estepe

Palhaços (1920), de José Gutiérrez Solana

        E quando uma série de amigos diziam e reiteravam: ouça O Teatro Mágico, meu "eu" do passado se manteve por algum tempo impassível. Um dos temas recorrentes em mim seria a resistência ao novo, ou mais, a vontade de se jogar ao tempo que tento manter raízes e convicções advindas de algures. Decidi seguir o caminho contrário. O que, a primeira vista, era encarado como um punhado de músicas alegres, apenas. Seria vivido até uma opinião surgisse. Simples assim. Aficionado que sou por Humberto Gessinger, não havia me passado em mente o versos da canção de 2003 Segunda-Feira Blues I Onde está o teatro mágico só para iniciados? Tampouco a relação entre a banda Steppenwolf - para mim sempre uma one-hit-wonder com sua Born to be Wild - e o autor alemão Hermann Hesse, pra ser sincero, nunca ouvira falar de Hesse até então.
        Fui surpreendido ao saber que Entrada para Raros era um álbum de 2003. Só ouvi falar da banda quatro ou cinco anos depois. É quase como Kulakauskas mantivesse canções desse período em seu repertório pessoal desde sempre. No meu caso, duas faixas se sobressaíam: Uma parte que não tinha e A Fé Solúvel, esta em especial fez com que me aproximasse da alma poética de Quintana em seu Poeminho do Contra: "Todos esses que aí estão/Atravancando meu caminho,/Eles passarão.../Eu passarinho!" Talvez por conta disso estas canções me acompanhavam quando carregava cidade afora um vaso de túlipas regadas a agua salgada. Talvez seja a ancoragem emocional, nunca cheguei a me conectar com o primeiro disco.
        Recém lançado em 2008, O Segundo Ato saltou a meus olhos a participação de Zeca Baleiro na faixa Xanéu nº5 (prima-irmã de Televisão dos Titãs, amante de Tv a Cabo de Otto) O ar era distinto do que eu imaginava encontrar, também não era difícil perceber que o titulo da canção não se referia ao perfume campeão de vendas da estilista francesa Coco Chanel. A trupe estava chegando à cidade e com ela lidando com toda sorte de problemas da vida contemporânea. Tentando entender a atmosfera de fascínio busquei assistir uma série de vídeos no YouTube enquanto me preparava psicologicamente para experimentar um show, afinal, o circo nunca teve um papel intenso em meu imaginário infantil repleto de obras nipônicas, então, mergulhar simplesmente na fantasia me parecia um passo maior que meus pés. Haviam faíscas surgindo aos poucos, quando, ao comprar uma escaleta, o primeiro reflexo foi tatear as notas de Cidadão de Papelão.
        A inadequação com a estética do primeiro disco me levou a embates ideológicos com a parcela de fãs que afirmava que o som era "só para raros", ao passo que, pelo que via, a ideia do idealizador do projeto, Fernando Anitelli era de que todo ser humano é raro em suas particularidades. A questão conceitual, o nome retirado de uma passagem do livro de Hesse me passava a ideia de que ali residia algum mistério maior. A fascinante inadequação de Harry Haller me levou também a adaptação do livro, conduzida por Fred Haines em 1974.  Não apenas isso, a outras obras tais Sidarta e Demian, nesta última, também pensei na poética d'O Teatro Mágico. Quando li A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer precisa destruir um mundo. Imediatamente lembrei do trecho presente em O Mérito e o Monstro: Pra dilatarmos a alma/temos que nos desfazer/Pra nos tornarmos imortais/A gente tem que aprender a morrer/Com aquilo que fomos/E com aquilo que somos nós.
         Anitelli encontrou na figura do palhaço a representação da pluralidade do ser. A falar disso, bastaria a citação de Hesse. Acaso minhas palavras não se sustentem tanto a obra de Hermann quanto a de Fernando permanecerão. A poesia prevalece! Também o ímpeto de falar en passant da minha relação com a obra desta banda.
          No ano de 2011, Fernando lançou seu primeiro álbum solo. Ali não se mostrava o palhaço trovador. Ao cair a maquiagem permaneceu o requinte poético. Quando ele tirou As Claves da Gaveta teve a possibilidade de reformular uma série de composições já conhecidos dos fãs em versão "voz & violão" que circulavam a grande rede por anos. Letras dignificadas em arranjos de ares sutis do jazz mais brasileiro, se assim se pode dizer. O receio de que a trupe desmantelaria feneceu com o surgimento d'A Sociedade do Espetáculo, agora disseminando o conceito de Guy Debord em meio a referências pop. Mesmo a capa tinha um quê de Sgt. Peppers. O fim da trilogia trazia de uma parceia com Leoni a uma composição baseada em sugestões dos fãs por meio do Twitter. Água mole em coração de pedra, o saldo parecia positivo: agora estava tudo em paz, tudo ótimo, acabada a luta. Finalmente vencida a batalha contra si mesmo. Amava o Grande Irmão. Realmente apreciava O Teatro. Não todas as canções, mas a proposta de amplificar como num sarau o discurso humano de semear o amor. Havia versos, que ressoariam melhor num poema. "Essa heterointolerância-branca te faz refém", por exemplo, era incensada por diversas reviews sem que sua forte mensagem encontrasse as melhores cores. No entanto, apenas o fato de a mensagem lá estar, é louvável nesses dias de excessos em excesso.
          Correndo o risco de beirar o ficcional - considerando que descobrir o verdadeiro sentido das coisas é querer saber demais - cheguei à hipótese de que as engrenagens da transmutação do som da banda que tomaria parte nos álbuns seguintes tinham começado a se mover em 2010, quando a trupe recebeu a oportunidade de abrir um show de um dos heróis de Anitelli, Dave Matthews. Além de, ter a participação do saxofonista da DMB, Jeff Coffin na faixa Transição; "Se aprendermos a olhar para nossos sonhos, veremos quão perto estão", parafraseando o próprio Fernando antes de tocar Sonho de uma flauta numa versão elementar. Há quem diga que a introdução da faixa Quermesse, em Sociedade, ecoa Pantala Naga Pampa. Era exagero pensar que essas aproximações anunciavam o fim de um ciclo? Talvez. Se milagres acontecem quando a gente vai a luta, estar em contato com nossos ídolos pode ser transformador até em relação a nossas próprias criações. Divago. Fato é que, depois desse álbum não me deparei com nada que envolvesse O Teatro Mágico.
Pelo menos até visitar a exposição Picasso e a Modernidade Espanhola no CCBB de São Paulo. Quando me deparei com o quadro a ilustrar essa postagem enxerguei Anitelli num dos palhaços de Gutiérrez Solana. No melhor estilo místico acreditei ser um sinal para descobrir o que eu perdera. Descobri que em 2014 havia sido lançado O Grão do Corpo. Nome que me chamou atenção juntamente a sobriedade da capa. No som não se encontrava o violino ou o DJ. Não haviam vinhetas, uma faixa com um poema, uma instrumental calcada no piano e percussão. Soa o álbum mais urgente e ao mesmo tempo coeso. Um novo ato! E essa reformulação merecia ser vista ao vivo. Ainda que não tenha mencionado no terceiro parágrafo, fez parte de minha 'experiência social' pegar o pancake que eu usava para fazer as vezes de Coringa e me maquiar como um integrante da trupe. Além disso, completei meu estudo de caso vendo diversos shows, na Academia Brasileira de Circo, no Carioca Club e também na primeira edição do SWU, por exemplo. Cada qual com um humor distinto e algumas vezes a fazer companhia dos mesmos amigos e amigas que faziam a indicação do primeiro parágrafo. Agora, eram apenas dois, eu e minhas circunstâncias.
         Não resisti passar na Lojinha para comprar camisetas, canetas, um adesivo para o carro de meu pai, etc e tal. Usara minha camiseta d'O Segunto Ato até puir. Agora era a hora de um arco-íris no logo e da estampa de Partilha, amor à primeira audição. Nas prateleiras pequenos frascos coloridos saltavam aos olhos entre os souvenires. Não ousei perguntar o que seriam. Me peguei torcendo para ouvir todas as músicas do disco novo no show. Foi assim? Sem ter um diário tal memória me escapa, também não quero procurar resenhas do evento. Os motivos antitéticos estavam ali, "morrer de vontade de viver", "a vida anuncia que renuncia a morte". Como de praxe, as letras apresentavam muito material para se discorrer de maneira existencial. Ou era o momento que eu vivia? Fica a abertura ao diálogo. Você está aí? A menção a acontecimentos em O Sol e a Peneira era como sucessora espiritual de Amanhã...Será? Travar contato com a manifestação e indignação em meio à festividade de uma canção popular tem o caráter de internalizar a reflexão. Assim, quando Anitelli explana ao público presente no Citibank Hall que o líquido em exposição na loja era a "essência do Teatro Mágico" não pude deixar de sorrir. Quantos dos mais apegados ao lado lúdico sentiam sua preciosidade esmaecida? Incontáveis, o caráter coletivo e camaleônico da trupe sempre estivera em voga, a vontade de buscar uma nova característica caracterizava o trabalho de Anitelli e, consequentemente, de todos os que o cercavam, leia-se: banda, dançarinas, sua família. Só a mudança é permanente. 
          Por conhecer o álbum de 2014 apenas em 2015, qual não foi a surpresa ao tropeçar este ano, 2016, em Allehop. Enquanto buscava referências para discorrer o álbum Era domingo de Zeca Baleiro em junho fui tomado de surpresa com o quinto registro da banda , detentor de uma alegria contagiante. Duran Duran, Oingo Boingo, Tears for Fears, ouvir é quase como estar num especial temático dos anos 80 - trilha sonora perfeita para a leitura de Armada de Ernest Cline? ao mesmo tempo nada soa fora do lugar, não é necessariamente um revival. A faixa sete, Cada Caso, me parece Undisclosed Desires da Muse. Como não poderia deixar de ser, a bagagem cultural do ouvinte vai guia-lo quanto ao que poderá encontrar. Se o disco anterior era mais politizado, esse é mais leve. Apresenta, também, campo lírico para análise. Se considerar que o disco abre já com versos como "no fundo somos todos sós" em tom de constatação. As interações do "eu" na busca de entendimento e de uma posição no mundo perpassam as letras. Frases de longa data no universo de Anitelli como "os opostos se distraem, os dispostos se atraem" se expandem na letra de Quando se distrai. Há mais de dez anos Anitelli dizia "eu não sei na verdade quem eu sou", hoje afirma que é "tudo o que faz para ser". Ainda que pareça despolitizado, o álbum soa coeso com a proposta de reinvenção. A última faixa fazer parte do "baú de Anitelli" (Num chat para o UOL em 2007 o compositor confirma a música já existia nove anos antes, o que data meados de 1998) também não parece gratuito. É quase como acenar, mais uma vez, para o passado, enquanto se permite pintar o futuro. Quase todos os registros, sejam cd's ou dvd's, d'O Teatro Mágico apresentam novas fantasias para antigos sonhos guardados. Existe, claramente, uma busca por explorar o potencial de cada uma das claves escondidas. Me identifico com essa incessante procura. Quanta bagagem cultural obtive simplesmente por querer me posicionar contrário a quem me pedia que ouvisse a banda? Hoje, sou eu quem indica: a vida convida pra se viver!!!

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Efeito Borboleta

Caos: Quando o presente determina o futuro, mas o presente aproximado não determina aproximadamente o futuro. - Edward Lorenz



Por Jorge Luís Barros

         "Quando a previsão do futuro se tornou tarefa ingrata, colocou os olhos no passado. Estava certo, ainda possuísse nada além da intuição como pilar, de que esse comportamento o levaria a encontrar a saída para a situação em que se encontrava. Repleto de silêncios, sem nenhuma palavra, som ou o que o valha. Havia, no entanto, uma série de "quês". Um maldito queísmo alastrado em sua fala havia anos; mesmo quando essa fala era nada mais que o fiapo de um pensar. Abriu então a empoeirada mochila vermelha, uma série de cadernos, utilizados por cerca de três anos antes de se transfigurarem em referências para consultas. Tateava cada uma das páginas tentando alcançar a desesperada destreza de Evan Treborn, sem sucesso. Lia e relia o pequeno trecho escrito no verso de um recibo da agência em que trabalhou:

A ponte entre sua mente e aquele instante não fora realizada. Estava ainda sentado no edredom escorregadio. Equações nunca estiveram entre suas áreas de atuação proeminente, então afirmava: cálculos em física quântica estariam fora de cogitação. Desaprendia cada vez mais em matéria de pêndulos duplos. Creia nisto: Quando na quarta série, sua professora de matemática - depois de observar cerca de noventa e sete por cento dos alunos deixar a sala ao fim de uma prova - solicitou a mais formosa de suas colegas que o ajudasse a resolver alguns cálculos envolvendo porcentagem. Porcentagem, imagine você! Era óbvio: a instabilidade nas equações não lineares certamente seriam uma impossibilidade prática. De onde tirara o caos, então? Provavelmente do palhaço do crime. Vestido de púrpura ele se apresentava como um agente. A palavra seguia tatuada com faca em suas sinapses. Era, com alguma sombra de dúvida, triste. Entre suas intenções estava tirar os sentimentos mais doces de pedestais, a vontade de estar acima de tudo que fosse patético, como o querer escravo que recrudescia de uma semente no solo constituído de massa cinzenta. Se dizia que o sorriso de alguém era capaz de trazer o dele, como alcançara esse estágio de bem-querer genuíno?  Poderia ser apenas a história dolorosa de possibilidades irrealizadas. O Presque vu ocorria com frequência maior que a de seu irmão mais conhecido; Por Zeus! Como é que se diz mesmo? Melhor passarmos ao próximo parágrafo que desse nada se salva!"

         O convite para falar de Efeito Borboleta veio como uma surpresa, Thales me chamou dizendo que nem sempre sabia como falar de suas letras, então tentei criar uma narrativa que remetesse a esse desconhecimento, aqueles instantes em que você sente a lembrança na ponta da língua mas não consegue traduzir sabe? o tal "presque vu" do parágrafo passado. Longe da ideia megalomaníaca do bater de asas de uma borboleta causar um tornado no Texas, meu pensamento era: quais são as pequenas ações ou encontros que pavimentam o futuro. O post da canção Volta é um exemplo disso, indo um pouco além, o próprio blog só existe por ter havido na "grande história", sete anos dedicados as composições que surgem nos textos. Tomei a liberdade de entrar em contato com pessoas próximas a ele para intuir o que achavam da música oito anos depois de sua criação. Tiele Rodrigues foi sucinta "o texto continua belo". Bruno Oliveira, baixista e coautor de canções como Felinos e Cantillena Sant'Anna, afirmou que há boas frases como "a lua cheia já prometeu que me fará companhia", e sentia o fantasma de Lobão por toda a melodia. Ambos concordaram que o verso final é o mais bonito da música. Procurei também pelo cantor Fabio Kulakauskas autor de, entre outras, Por mais que te desejo e Noites esfrias, no entanto, em virtude do intenso estudo de Estatística não consegui sua declaração;
Tive a oportunidade de perguntar a Thales acerca de onde ele surgiu com alguns dos versos. A descrição da Joaninha veio da canção de mesmo nome do alagoano Djavan, o disco Matizes fora sua entrada real no universo do artista. Já a ideia da ópera surgiu do capítulo IX do Dom Casmurro de Machado de Assis, mas apenas por alto. O filósofo francês Michel de Montaigne já registrara: "todo resumo de um bom livro é um resumo tolo", a ideia não era tentar sintetizar, era aquela ideia que parece boa demais e se pode atribuir novos significados. Ele concordou quanto a Lobão "à época eu estava ouvindo muito o acústico MTV dele, toda a questão de ir da delicadeza ao peso era impressionante, fora o número de instrumentos. O Lobão tem aquela coisa de fazer vocalizações, como em Pra onde você vai? e até então era um recurso que eu nunca tinha tentado utilizar, por vergonha mesmo, você nota que mantenho bem leve, era uma tentativa de ir para um caminho levemente distinto do que a Falsa Modéstia tinha feito até então, ou não? nesse voz e violão tentei cantar de forma mais natural, sem imitar tanto." Ele conseguiu encontrar o manuscrito que usara para registrar anos antes na casa de sua avó e reproduzo aqui, no fim das contas não houve tantas alterações. Até esse momento, ele não estava a se preocupar tanto com questões de autorreferência ou de exclusividade de termos, então essa canção marca um período de menor preocupação com o resultado final, como seria evidente a partir do momento em que ele conhecesse A Estética do Frio de Vitor Ramil. 


Efeito Borboleta (2008)

Se eu olho para o céu
E vejo as nuvens indo para um só lado
Eu sei que é o seu
Se está escuro
Sei que as estrelas podem me guiar
A lua cheia já prometeu
Que me fará companhia
Há musica no ar, música no ar
música no ar

Tudo me leva ao seu encontro
Eu simplesmente deixei-me levar
O teu sorriso em algum lugar
Traz também o meu
E mesmo quando o poema
Chega ao derradeiro fim
O caos é a saudade de você

As asas multicoloridas da Joaninha
Refletem pela mata, o brilho dos vaga-lumes
A Terra é um palco onde uma opera é regida
Pelos deuses e por ti

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Volta

"Toda a gente tem um mundo secreto dentro de si. Toda a gente no mundo. Toda a gente mesmo. Podem ser as pessoas mais aborrecidas ou chatas por fora, mas dentro delas têm mundos inimagináveis, magníficos, maravilhosos, estúpidos e incríveis. E não é apenas um mundo, são centenas deles. Milhares até." Neil Gaiman, Sandman vol.5 - Um Jogo de Você

Terça-feira, 3 de julho de 2007 as 16h36

"Volte aqui, querido.
-Eu estou mandando, volte já aqui!
Quem você pensa que é? Aparece só quando eu estou na cama, fica me perturbando a noite toda, por diversas vezes não me deixa dormir. Quando eu acordo, você já se foi, e não deixa nenhum rastro de que passou por aqui. Nem um bilhete, nem sinal, nada. Sabe, isso me cansa as vezes.
E quando eu te chamo e você não aparece? Chego a ficar preocupada!
Você e seus surtos... Te acho muito temperamental sabia?
Eu acho que eu vou começar a te dar obrigações, quem sabe assim você se torna mais presente em minha vida. Olha, eu não sei viver sem você!
Hoje mesmo, eu estava lembrando... Quantas coisas fantásticas nós já fizemos juntos! Se bobear, algum dia tudo virará um livro.
Ultimamente, nossos momentos juntos são tão curtos, tão mascarados, aposto que você nem reparou como eu adoro estar com você. Aposto também que você não se importa tanto assim comigo, nem a metade do que eu me importo com você.
Você anda muito preocupado com os outros, visita com regularidade outras pessoas... Duvido que você não tenha se apaixonado por outra e, por isso, me abandonou. Mas me diga, o que ela tem que eu não tenho? Quantas vezes você me pediu pra fazer alguma coisa e eu a fiz, do jeitinho que você me pediu? Quantas vezes você assoprou em meus ouvidos, doces encantos que me faziam devanear pelos mais belos lugares e situações?
Alguma vez eu te "deixei na mão" por acaso? Não, nunca! Mas você sim. Ah, por favor volte! Eu lhe suplico, do fundo do meu coração!
Por favor, volte a ficar do meu lado, volte a me confortar.
Oh, por favor Inspiração, eu lhe suplico, volte logo! Eu sinto muito a sua falta..."

A música:
  

Sua história:
Vendo o caos dos cadernos, foi categórica: - você devia ter um moleskine!
  Ao ler o texto pensei no caminho traçado para alcança-lo: Passar um décimo de segundo a mais com a lista de chamada para cuidadosamente copiar as treze letras necessárias para a formação das três palavras que buscava. Terríveis grades impostas pela realidade! Possuísse os olhos de um shinigami nada disso teria sido necessário. É bem verdade, poderia ter sido pior, estivesse em um ambiente em que ninguém soubesse o nome de ninguém teria precisado observar cuidadosamente a altura que a dona de dourados fios escrevia e entre o eixo das ordenadas abcissas, cartesianamente, obter um nome-próprio. Então alguém diria, não seria mais fácil simplesmente ir até a pessoa e se apresentar formalmente? Aparentemente, sim. De todo modo, engendrar essa busca dentro de convenções sociais não me soava aprazível.
         Supunha, intuitivamente, que ela escrevia, e encontrar um blog em seu nome fez com que eu me demorasse em cada uma de suas palavras antes mesmo de trocarmos qualquer palavra pessoalmente, isso viria a ocorrer depois. Olhando em retrospecto - pode ser me tenha chamado atenção o fato de Cibele Ventura ter escrito aquela postagem no ano de 2007, mesmo período em que estava eu a compor as primeiras canções da Falsa Modéstia. A personificação da "Inspiração" como uma personalidade temperamental praticamente autocentrada me chamara a atenção. Sabe aquele momento em que você pensa 'pudera eu escrever algo assim?' era a minha situação, isso me incentivou a pensar em adaptar o texto em uma melodia. Conversando com a autora soube que ela não pensara em nenhum ritmo específico, tampouco imaginara musicar, em virtude disso me deu liberdade criativa. O que me levou a esses versos:


         Encontrar as ideias melódicas me tomou cerca de oito meses, a indecisão maior era como dar forma a canção. Debruçaria sobre Beatles, Beach Boys, Doors, Dylan, Cash, Stones, Floyd na procura de algo que sintonizasse com os gostos dela? Não seria efetivo. No período prolífico de composição, chegaram a pedir que compusesse músicas que soassem de Barão Vermelho à Br'oz, e sinto que não alcancei nada parecido; O resultado final soa... indefinido até para mim. Afirmo, não soava como as composições do período em que a Falsa Modéstia esteve em atividade, estaria eu copiando de algum lugar? Quem ouvir dirá, o resultado final foi o que foi. Houve poucas alterações de versos, como pode ser comprovado na transcrição dos versos gravados:

Volta (2011)

Na cama ouço teus sussurros
Se desperto te aguardo
Quase nunca você vem
E há tempos que já nem
Dedica um tempo, todo seu, para mim

Tudo o que fizemos
Quanto importa pra você?
Na certa estará preso 
A afagos de alguéns
Será que não mais
Minha poesia vai satisfazer?

Deixa de lado suas outras paixões
E vem outra vez...
Você há de voltar
Mate a falta de você
Inspiração

Talvez não lhe apraza mais as páginas
De imaginários livros que fizemos
Sem você aqui nem mesmo as ridículas
Cartas de amor vão viver

Deixa de lado suas outras paixões
E vem outra vez...
Você há de voltar
Mate a falta de você
Inspiração

Consegui o autógrafo!
         Cheguei a versionar pelo menos mais dois outros textos de Cibele e, até hoje, não foram musicados. Considerando o fato de estar a viver um hiato criativo há cerca de mil dias, imagino que a situação não será alterada tão cedo. Para além disso, ter contato com tais palavras impulsionou minha busca por "melhorar meu jogo composicional" e isso não pode me ser tirado. No ano de 2011, terminei por batizar minha demo como "Belaventura". De suas onze canções, sete são parcerias com pessoas e
métodos distintos. Entre elas, Falta, tema da postagem da semana passada, por exemplo. Dentre minhas inspirações para a criação desse blog, estão os Venâncios, o blog da atriz Maureen Miranda, A Máquina de Caminhar de Cristovão Tezza, o podcast Zing! nº40 e, como não poderia deixar de ser, o blog Where is Mind? dessa entidade conhecida virtualmente como "o oposto", certa vez afirmaram que "ela tinha na força dos dedos o fogo da palavra certeira que fere e cura os corações dos poetas" que descrição melhor faria eu? Penso para onde foram suas palavras,  quem sabe sua mente esteja projetada astralmente pelo mundo espelhado do mago supremo, como a minha esteve hoje. Somente os tolos são escravizados pelo tempo e espaço, quem sabe o que o futuro trará provavelmente virá com os gatos, enfim!

Esboço de capa para a demo de 2011 Belaventura e suas faixas.