domingo, 31 de dezembro de 2017

CCCLXV

"Eu acredito que há uma mão que nos guia. E ela nem sempre é gentil. Ou uma que pareça justa no momento. Mas eu não sei, eu tento confiar nela agora. Quando surto, eu apenas tento... merda, acho que tento confiar nela. Pois, no fim do dia, o que mais se pode fazer? As escolhas só nos levam a um determinado ponto. O raciocínio e o planejamento também. O resto... depende de alguma outra pessoa. Onde vamos parar, quem conhecemos, o que acontece com as pessoas que amamos... não temos muito controle sobre nada disso." - J.R. Ward, Amante Liberto
Araucária de Bragança Paulista - 2016



CCCLXV (2017)

Da janela do hotel, eu vejo o porto 
E procuro alegria. Quem diria? 
Outro ano se põe.
Contrariando a expectativa
Eu b
usco o lado bom
Da retrospectiva. Quem diria?
Há o "novo" amanhã

Tudo dependia
De conforme fosse a vida
Agora o que é já foi
Também o que há de ser
Tamanha incerteza
Quando acasos se harmonizam
Na alquimia das distâncias
De um futuro que antevê

Harpas de anjos tocadas
Em uma estranha canção
Lume dos sonhos perdidos
Em meio a uma explosão
Neon cobrindo os céus

Victor & Leo - 25 Anos de Sucessos

"Beleza, juventude e vozes bonitas, que não agridem e penetram em espirais delicados em nossos ouvidos. Ouvindo Victor e Leo ninguém se sente abandonado nem constrangido porque a sensação é boa para todos. Nada é feio. (...) Percebo também um certo “espírito de Gonzagão” que ronda deliciosamente muitas das canções da dupla. Estão ali a estrada, o sertão, o fogão rústico, a lagoa e sempre alguém a esperar. (...) Victor e Leo é pra quem está de bem com a vida ou para quem está querendo chegar lá. “Boa Sorte Pra Você” é para as novas gerações de brasileiros que buscam os valores que definirão a estética dos próximos muitos anos.
Canções de felicidade são e sempre serão o melhor caminho."  Excertos do texto de Renato Teixeira sobre o álbum Boa Sorte Pra Você, 04/11/2010
Victor & Leo (foto da página oficial da dupla no Facebook)
          Se o texto passado ( Amor Infinito) falava de uma canção inspirada num personagem do livro No Colo dos Anjos de Leo Chaves, nada melhor que falar um pouco do show que permitiu que eu conhecesse o livro. Sem mais delongas:
         Qual a melhor forma para começar um show comemorativo que usar o material novo? Foi assim que a dupla Victor & Leo iniciaram o primeiro de dois shows realizados no Citibank Hall. A introdução instrumental, presente até em dvds da dupla, colocou o público em expectativa até surgirem os primeiros acordes de Senhorita, lançada em maio de 2017, e a maior parte da platéia passou a cantar na mesma energia nas canções seguintes. Com uma letra que se passa na imaginação do eu-lírico é interessante como a faixa mantém o clima 'pra cima'. Hoje não há como usar a palavra senhorita sem imitar a letra, ao menos no meu caso.
         A balada de Marcelo Martins e Sérgio Porto, Na Linha do Tempo, veio em seguida. Seu título caberia muito bem para essa nova tour. Há algo no arranjo dela que remete a Where is the Love? Sucesso do Black Eyed Peas de 2003. Com Fotos, a banda salta para 2007 e em seguida está em 2009 com Não Mais. Ainda que existam diferenças de direcionamento nos álbuns de estúdio, as composições da dupla transitam entre si tranquilamente, um atestado de sua  assinatura musical. De seu terceiro DVD ao vivo vem as canções seguintes: Quando Você Some e Não me Perdoei. Sempre me perguntei se Victor compôs a primeira tendo em mente que a gravaria com Zezé de Camargo e Luciano, afinal, a canção Dou a Vida por Um Beijo tem em seus versos "morro de saudades quando você some". A segunda teve um dos bons solos de guitarra na apresentação.

        As canções seguintes Nada Normal, O Jogo da Vida, Não Precisa (que em 2011 fez parte da trilha sonora da novela Morde e Assopra) trouxeram atmosfera próxima à do primeiro álbum ao vivo. Leo aproveitou Lembranças de Amor para cantar um refrão com a letra em espanhol como lançada em 2009. Sob os acordes introdutórios de Meu Eu em Você, Leo cumprimentou o público expressando sua gratidão pelo momento especial. "Obrigado São Paulo! Cantem, dancem. Quebrem tudo, no bom sentido.". A apresentação contava então pouco mais de meia hora. A maior parte dos álbuns de estúdio da dupla tem a duração de cerca de quarenta minutos. Dessa maneira era como ter ouvido um CD inteiro.
         Na tradição de coveres de canções de fora do universo sertanejo a dupla tocou Só Hoje, uma das mais famosas baladas da Jota Quest. As composições seguintes foram de Na Luz do Som: O Beijo que Eu Mais Quis tem um arranjo que remete ao acústico presente em Razão do Meu Astral. A letra carregando uma terna declaração de amor, retratando um eu-lírico tão tocado pelo sentimento real que pensa ser uma ilusão. A faixa que leva o nome do álbum e é seu segundo single tem um grande trabalho de guitarras e seus versos "na luz do som da sua voz/ em paz meu coração se vê/ a noite vem na escuridão/ de não ter você aqui outra vez" são um ótimo exemplo da sensibilidade artística da dupla para traduzir situações complexas sem pesar no drama. Isso também é percebido no medley de Boa Sorte pra Você e Ao Vivo e em Cores. Quando tocam um pequeno trecho de Tem que Ser Você há a comoção da platéia que tem o prazer de poder cantar junto com os ídolos, como quando tocam Fada. Logo depois, Leo saca seu smartphone perguntando se pode gravar um vídeo - claro que ninguém se opôs. Essa dinâmica de instagramar instantes permite uma identificação do público com os artistas num momento divertido do show.
         O Granfino e o Caipira surge no repertório em versão reduzida o que é uma pena por conta da narrativa da letra que vai evoluindo uma história. A seguir vem Anunciação, de Alceu Valença, num trecho do show capaz de transportar a todos para a atmosfera dos bares. Começando com Boteco de Esquina e seus "causos" sobre a vida de quem canta na noite e tem em sua letra a melhor deixa para trazer a canção seguinte: "Desligamos o som eram cinco pras seis, e um bebum pediu Fio de Cabelo outra vez. Vamô atender! Quando a gente ama qualquer coisa serve para relembrar." Depois da parceria de José Marciano e Darci Rossi vem os sucessos Telefone Mudo, 60 Dias Apaixonado e então Estrada da Vida de Milionário e José Rico. Outra homenagem da dupla às suas referências é com Tocando em Frente, de Almir Sater e Renato Teixeira. Curiosamente essa canção foi gravada por Gal Costa também quando ela comemorava vinte e cinco anos de carreira em 1990.
        Belo blues em homenagem à cidade em que cresceram (Abre-Campo, MG) Momentos traz uma bela mensagem para reflexão. Quando pesquisamos acerca das diferenças entre a música caipira e a sertaneja, a falta de variação temática da segunda sempre surge como um de seus pontos fracos. Por toda obra de Victor & Leo se pode perceber que vão além do "pop romântico". Várias de suas composições como Deus e Eu no Sertão, Vida Boa, Vou pra Roça, Lem Casa, Sem Trânsito, Sem Avião, Tudo Bem e, mais recentemente, Valsa do Vento tratam de temas rurais e existenciais sempre com qualidade. Falando em qualidade, ela já era perceptível para críticos de música, como nesse excerto do texto de Marcus Vinicius do Blognejo em outubro de 2008:
"As maiores críticas dos profissionais da música contra os sertanejos giram em torno das características mercadológicas do estilo. Nos anos 90, a música sertaneja era feita para dar dinheiro, acima de tudo. Qualidade não era o principal objetivo, apesar do talento dos cantores, que era fenomenal. O diferencial de Victor & Leo é o fato de que eles não fazem músicas boas para serem sucesso, mas são sucesso porque fizeram músicas boas."
      A divulgação recente da composição Cantor do Sertão segue a linha bucólica e aumenta a expectativa para o DVD de mesmo nome que tem previsão de lançamento para 2018. A assinatura musical da dupla permanece seja quando agregam elementos de reggae, rock ou eletrônica em sua música. Entre Deus e Eu no Sertão e Vida Boa, Victor assumiu o microfone para falar do período turbulento vivido no primeiro semestre e como foi acolhido por amigos próximos na travessia.
         O segundo blues da noite veio em outra composição do álbum mais recente: Louco por Você, que além de contar com mais um solo de guitarra inspirado tem em sua letra uma bela descrição de alguém apaixonado a ver seu amor dormindo. "E então você solta aquele sorriso seu/ se desperta pra mim/ E quem começa a sonhar/ Sou eu". O último cover da noite é o sucesso da dupla goiana Chrystian e Ralf: Nova York. Com direito a uma jam instrumental e Leo surgindo de chapéu para a interpretação enquanto o caminhão da letra era projetado no telão ao fundo. A parceria de Leo e Marcelo Martins, 10 Minutos Longe de Você vem e faz pensar se um show sem mesas não seria mais propício para as faixas mais dançantes. Apesar do número de execuções no decorrer dos anos, um de seus primeiros sucessos continua gostoso de ouvir, Amigo Apaixonado antecede a faixa de abertura do álbum Viva por Mim: Tudo com Você.
         Em meio às guitarras da introdução, Leo agradece ao Citibank Hall e à Gazeta FM , que divulgou o show em promoções, e seguiu apresentando a banda de apoio que recebeu os aplausos da platéia calorosa. Nas guitarras, Beto Rosa. Alexandre de Jesus na percussão. Thiago Correia no contrabaixo. Teclados e Sanfona, André Henriques e Jander Paiva, respectivamente e na bateria André Campagnani. O grupo acompanha a dupla há anos e dão o suporte essencial para os arranjos. Fechando a noite, uma das canções mais emblemáticas da dupla: Borboletas. Música que, entre outros feitos, recebeu o Prêmio Musica Digital na categoria música pop mais vendida. Ganhou uma versão da banda holandesa Kim e foi a cifra mais buscada nos vinte e um anos do site de música Cifraclub. O que demonstra o grande número de pessoas interessadas em aprender à tocá-la.
         Esse foi um ótimo show, a dupla passou por sua discografia, apresentou canções do novo trabalho, homenageou influências e ainda deixou dezenas de sucessos de fora. Tocar mais de trinta músicas em duas horas e ainda deixar um gosto de quero mais não é para qualquer um.

A arte de Victor & Leo e eu:

        Os irmãos criados em Abre-Campo (MG) estão unidos em música há um quarto de século. Embora, eu os tenha conhecido há dez anos. Em 2007 eu trabalhava numa banca de doces no terminal rodoviário de Arujá, com o ponto embaixo da caixa de som da loja de cds. Por conta disso os dias eram passados a ouvir as escolhas dos funcionários dela. Muitas das vezes o álbum Em Foco de Amado Batista, O Forró Cintura de mola. Mesmo o álbum Lovy Metal vol. II dificilmente era tocado além das primeiras faixas (Is this love? e Wind of Change). O álbum que era tocado na íntegra, era o primeiro Ao Vivo que havia sido relançado pela Sony BMG à época. 
         É importante salientar isso justamente por Victor & Leo ser um ponto fora da curva em minha apreciação musical. Naquele mesmo ano, haviam lançamentos de bandas que eu já ouvia como Capital Inicial (Eu Nunca Disse Adeus) e Engenheiros do Hawaii (Acústico Novos Horizontes) e também álbuns de artistas que eu passaria a acompanhar: Lobão (Acústico MTV), Nação Zumbi (Bossa Nostra) e Vanguart (o primeiro álbum, homônimo). A música sertaneja nunca fora foco de uma apreciação contínua. Haviam, sim, canções de Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo, Zezé de Camargo e Luciano, Edson e Hudson que eu conhecia. No ensino médio uma das canções que os colegas cantavam com maior empolgação nas rodas de violão era Deixa (Bruno e Marrone). A proximidade com canções caipiras, mais próximas à raiz, era feita apenas ao assistir programas como o de Raul Gil e o Viola, Minha Viola. Dessa forma, meu maior referencial sempre foi a matriz romântica do estilo.
         O site oficial descreve os irmãos como uma dupla folk brasileira, com um estilo que mescla música sertaneja de raiz, pop e rock. Essa união provavelmente foi o que chamou atenção, unida a enorme carga autoral presente em seus álbuns. Depois do lançamento de
Borboletas - ainda hoje um de meus álbuns prediletos - tive certeza de que eram uma referência musical para mim. Além de servirem como porta de entrada para um estilo musical que carrega muito preconceito pela associação estigmatizada do termo caipira. No talento de ambos reside a universalidade da música e isso é inspirador.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Amor Infinito

"Os verdadeiros artistas não são somente aqueles que estão em cima do palco, mas também aqueles que se aventuram pela vida." No Colo dos Anjos, Léo Chaves
Foto: Andree_Nery (iStockphoto)
         No Colo dos Anjos (Editora Gente, 317 p.) foi uma grata surpresa descoberta no show de Victor & Leo no Citibank Hall dia oito de dezembro. Pude ver a dupla com meu pai graças à rádio Gazeta FM - e as ligações de meu pai, claro. Ao adentrar o espaço me deparei com um estande do primeiro livro de Leo Chaves. "Puxa! Ele escreveu um livro?! Preciso tê-lo". Estava convicto de que Crônica do Pássaro de Corda seria minha última leitura do ano, abri uma exceção pela curiosidade crescente e, não me arrependi. 
        A narrativa é envolvente. De cara, conhecemos a situação do jovem astro Bruce Vilanova e a cada capítulo vamos conhecendo mais dele enquanto refletimos acerca de nossas próprias escolhas e conceitos. Bruce é um artista no auge que vive um momento delicado de sua carreira e nos depararmos com ele favorece nossa empatia. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, diria Caetano. Martin é um artista renomado que surge para mostrar ao jovem que sempre é tempo de renovação. Através de uma série de treinamentos que o ajudarão a utilizar o poder de sua mente e conhecer melhor a si mesmo, à sós e em sua relação com os outros.
           Para os fãs de Lost, a dinâmica de Bruce e Martin pode ecoar ao episódio sete da primeira temporada em que Locke explica a Charlie sobre a luta que a mariposa precisa realizar para se fortalecer e sair de seu casulo. Leo é capaz de conduzir a história sem soar apelativo, seja com os efeitos da fama ou da abstinência. O fato de ser um artista renomado o permite desmistificar os bastidores da fama e, por isso, as personagens serem uma dupla de artistas favorece em muito a construção de alguns dos conflitos.
          São vinte e oito capítulos que podem ser encarados como um álbum duplo. Sem spoilers: para aqueles que já ouviram o álbum Na Luz do Som o livro conserva uma bela surpresa. Então, vocês se perguntam: qual a razão do post se chamar Amor Infinito? Em determinado ponto da o título é mencionado como uma das canções de Bruce Vilanova. Lia no ônibus e experimentei cantar uma visão desse sentimento. Quase instantaneamente os primeiros versos surgiram com o que viria a ser o refrão. Mesmo desafinando, esse foi o resultado que alcancei, dá para ter uma ideia:
Amor Infinito (2017)

Vejo seu rosto nas fotos
Um riso que poderia ser nosso
Ah! Se eu tivesse uma chance
De escrever nosso romance
Te mostraria, o futuro
Feito dos sonhos feitos a dois
Te apoiaria em tudo
Sei é tão fácil falar

O sol em nosso anelar, é tão bonito
Enlaçamos mãos temos um lar
E o amor é infinito
Pressinto um beijo doce de se flutuar
Nada é capaz de segurar
Um Amor Infinito

Assim será nosso mundo
Pelos caminhos o petricor
E em cada gota de chuva
Um arco-íris de dou

O sol em nosso anelar, é tão bonito
Enlaçamos mãos temos um lar
E o amor é infinito
Pressinto um beijo doce de se flutuar
Nada é capaz de segurar
Um Amor Infinito

         ALERTA DE SPOILERS!: Num momento terno do livro, Leo mostra a letra de música. Não pude deixar de pensar que, sendo a ansiedade o mal do século, eu fora acometido por ela. Tivesse eu aguardado algumas dezenas de páginas teria conhecido a verdadeira Amor Infinito. Que reproduzo aqui:

Amor Infinito
(Composição de Bruce Vilanova presente em No Colo dos Anjos, de Leo Chaves)

Lobos internos me devoram
Mastigando sonhos, fome de amor!
No escuro, caminhando sem chão
Um caminho pra dois corações!

E nessa estrada bem distante
Se arrastam minhas emoções!
Não aprenderam a dizer não!
O amor vem na mesma direção!
Uma nova jornada adiante!
Eu não me refiro a ilusões!
A luta é por você e com você!
Pra então o dia nascer bonito
Num toque de mágica,
Num amor infinito!
Amor Infinito

Me agarro apenas em sonhos!
Seria real em nosso mundo?
Eu não deixaria você partir!
Minha felicidade iria junto!

E nessa estrada bem distante
Se arrastam minhas emoções!
Não aprenderam a dizer não!
O amor vem na mesma direção!
Uma nova jornada adiante!
Eu não me refiro a ilusões!
A luta é por você e com você!
Pra então o dia nascer bonito
Num toque de mágica,
Num amor infinito!
Amor Infinito

       Ainda assim, por já ter composto minha própria versão. Fiquei contente com as palavras de Martin Blumer na p.124. Quantos livros inspiradores vocês leram neste ano? Há várias portas para reflexão nas páginas do livro de Leo Chaves. Tenho a impressão de que o revisitarei esses personagens de tempos em tempos.
"- Bruce, já sei que você escuta, na maioria das vezes, canções ligadas a seu gênero musical. Entendo que existe um mercado, já vivi tudo isso, mas comece a experimentar de outras nascentes e veja se elas, de alguma forma, poderão acrescentar algo a seu universo artístico. Eu acredito que sim, pois aqui tem muita essência. É importante conhecer as raízes de outros estilos. Sua música pode ficar extremamente rica e ganhar ainda mais identidade."

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Noites Esfrias

"O futuro era argila, para ser moldada dia a dia, mas o passado era um rochedo, imutável."  Sidney Sheldon, O Reverso da Medalha





Noites Esfrias (2009)
Composição de Fábio Kulakauskas

É uma pena ter que dormir
Principalmente naquelas noites lindas
Há tantas estrelas para contar
Para que desligar a mente
E acordar na rotina?

São os dias quentes
De noites frias

E quando o sol do meio dia
Lançar seus raios perpendicular
À superfície da Terra
Onde estará a noite fria?
Onde estará a noite mais linda?

É assim o tempo todo
É assim que a Terra gira
São os dias quentes
De noites frias


         Ainda que Augusto Cury afirme que a capacidade de se colocar no lugar do outro é uma das funções mais importantes da inteligência, por vezes, leio um poema ou letra de música e tento encontrar em mim o estado de espírito passado por outrem no momento de manipular as palavras artística e estilisticamente. Nem sempre sou capaz de fazê-lo. Como já mencionei antes no blog, já me impus a atividade de completar composições de pessoas próximas. Isso aconteceu, por exemplo, em Uma Nova Viagem e Mar de Mim. Ambas composições que partiram do imaginário de Fabio KulakauskasNo caso de Noites Esfrias, minha única contribuição foi o nome. Uma brincadeira com a sonoridade dos versos. O período da faculdade era prolífico nisso. Via um recurso estilístico em aula, em seguida tentava replicar. Daí vieram os neologismos Solipátria e Apacresce, por exemplo.
       Lembro de Fábio em sua garagem mostrando sua canção num ensaio. O verso falando do sol do meio-dia lançando seus raios perpendicular à superfície da Terra me chamou atenção. Há palavras com as quais não estamos habituados a atribuir ritmo e musicalidade. Essa construção me é cara até hoje. A letra remete a uma série de imagens bucólicas, mas, com estilo. De que noite ele se refere? Me imagino a contar estrelas sem instrumentação apropriada, com os telescópios guardados brinco de criar constelações e me perdendo em pareidolias... Ora direis ouvir estrelas! e sem perder o senso. Se em minhas canções até luas choravam tristes num dia claro, quão revigorante era encontrar uma letra em que se personifica "a noite" e se tenta traçar seu paradeiro quando o sol se espalha. Canções cálidas. Há alguns meses realizei esse registro da canção com a craviola de doze cordas. Diria Anitelli: difícil é ser tão simples.

sábado, 25 de novembro de 2017

Notas Fora do Lugar

"Imagine que você tenha vivido num mundo em que não existissem espelhos. Você teria sonhado com seu rosto, o teria imaginado como uma espécie de reflexo exterior daquilo que se encontra em você. E depois, suponha que com quarenta anos tenham lhe estendido um espelho. Imagine seu espanto. Teria visto um rosto totalmente estranho. E compreenderia nitidamente aquilo que recusa a admitir: seu rosto não é você. " Milan Kundera, A Imortalidade
Otarterrotua


Notas Fora do Lugar (2013)

A Carta
Já foi escrita
E eu a postei
"tudo em mim mesmo"
Verdades movediças
A areia escorre
E somos nós
Escolhi uma máscara
Sem perceber
Que a peça mudou

Sempre digo as mesmas coisas
Que sejam o oposto da vaidade
E quem há para dizer?
Nunca breve nem conciso
Sou só o retrato impreciso
Deste eterno retorno

A poesia
O desafia
Ela cativa
Ao castigar
Quando ninguém
Viu sua morte
O seu viver
Inacabou

Ele chegou atrasado pra vida
Ele não lia jornais
Há mil palavras que unem os versos
Será que alguém sabe quais?

Sempre digo as mesmas coisas
Que sejam o oposto da vaidade
E quem há para dizer?
Nunca breve nem conciso
Sou só o retrato impreciso
Deste eterno retorno
De mim

Esta é só uma canção
Indo pra destino algum
Notas fora do lugar
Sons tão distantes do Sul
Esta é mais uma canção
Voz de alguém que nada é
Notas fora do lugar
Tempo leva pra nascer!


         Mantive a gravação caseira de 2013. Não por não querer um registro melhor e sim por representar a forma como enxergava o ato de gravar após praticar as canções de Vitor Ramil em seu songbook Foi no mês que vem. A ideia do "sul" rondava meu imaginário por muitos anos e compositores. Humberto Gessinger, Thedy Corrêa, Adriana Calcanhotto... Em 2017 pude visitar Porto Alegre pela primeira vez, ainda tenha sido apenas um final de semana era como saber que precisava respirar o ar do Sul. Tomar a frase descoberta no livro Satolep era a única forma de encerrar uma letra que falasse de mim. O conceito de "eterno retorno nietzschiano" com o qual tomei contato na obra de Kundera. O desconhecimento da morte como possibilidade de existência contínua nas expectativas de familiares é de um filme de Linklater (em que parte da trilogia do Antes está?). Coisas que ficaram muito tempo por dizer, agora parecem não encontrar lugar.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Para Contato (Marte)

"A solidão é, mais ou menos, uma circunstância inevitável. Às vezes, porém, esse senso de isolamento, como ácido espirrando de uma garrafa, pode inconscientemente corroer o coração da pessoa e dissolvê-lo. Podemos ver isso, ainda, como uma faca de dois gumes. Isso me protege, mas ao mesmo tempo me dilacera por dentro. Acho que a meu próprio modo tenho consciência desse perigo -- provavelmente, por intermédio da experiência --, e é por isso que constantemente mantenho meu corpo em movimento, em alguns casos forçando-me até o limite, a fim de curar a solidão interior que sinto e colocá-la em perspectiva. Não é tanto um ato intencional, mas, antes, uma reação instintiva." Haruki Murakami, Do que eu falo quando falo de corrida.

STS040-610-049 Mar Egeu Junho 1991


         Tire a microfonia, retire a cacofonia sonora. Sobra alguma coisa dessa composição? Você, leitora ou leitor desse texto é quem decide, afinal, provavelmente não tenha o parâmetro da gravação caseira feita em 2007. Décima primeira faixa da demo Falsa Modéstia, Para Contato (Marte), iniciava a trilogia da primavera (que segue com Um Conto no Jardim e Para Ela), inspirada na trinca do álbum Gessinger, Licks & Maltz da Engenheiros do Hawaii. Ali, travei contato com as possibilidades de um tema recorrente em canções. O Marte do título era por conta da microfonia ao final da música. Nada contextual à letra.
       O eu-lírico se dirige a um interlocutor desconhecido - senso de despeito inapropriado? - inconformado com uma decisão que lhe fugia ao controle. Na primeira estrofe predomina o caráter de negação, sintetizado pelo uso do não a iniciar os versos. Em seguida ele se dirige a outrem. "Parem de falar que as coisas são assim, sem ao menos entender!" Ele grita várias vezes como quem se faz de surdo. Aqui, cabe uma reflexão de um texto do psicoterapeuta Flávio Gikovate: Acredito que é direito legítimo de cada um falar ou não com qualquer outra pessoa. O fato de ela querer muito nossa atenção não nos obriga a aceitar sua aproximação. E isso independe das intenções de quem deseja o convívio. A postura demonstrada pelo eu-lírico nesta canção é carregada de prepotência e egoísmo. Sua insistência demonstra apenas a falta de respeito e a vontade de magoar gratuitamente, como fosse um direito!
        Isso fica evidente no trecho final da canção. Um poema aliterativo inspirado na apresentação de V no filme V de Vingança. As coisas já começam mal: "E no prelúdio irei me predispor a te prender se precisar" e essa atmosfera densa se mantém ainda ele prefira colocar palavras doces como primavera nessa equação desconsolada. O que suas lágrimas devem evocar? A decisão mais acertada para tal personagem seria respirar fundo e aceitar o conselho dos que ainda se prezavam à dá-lo: as coisas são assim mesmo. Não se deve confundir insistência com inconveniência.

Para Contato (Marte) - 2007

Não acredito no que você me disse
Não acredito que aquilo quis dizer
Não faço apostas, nem estou triste
Só não me diga o que fazer
Não vou deixar de te ver

Parem de falar que as coisas são assim
Sem ao menos entender
Quem sabe o que fazer?
Quem sabe o que falar?
Para onde estamos indo não dá pra voltar!
Não dá pra voltar!!

E no prelúdio irei me predispor
A te prender se precisar
O principal é sim precário e na pratica
Serei precavido ao proteger
O precioso prêmio
Que desde o início me privei
A primavera que por prece
Deixou de ser profana
A primavera que por fim de prantos
Trouxe-me você!

sábado, 4 de novembro de 2017

Da Escolha

"In a way this dream is over, blown away our four leaf clover"
Me and my big ideas, Tears for Fears
"Flor vermelha que encanta"




Da Escolha (2017)

Quem sabe o que nos falta
Seja paciência?
Seu último amor 
Te fez trancar as portas, todas,
Perder chaves
Quem sabe semeou já
A correspondência?
Mas leva tempo para
Os galhos alcançarem, enfim,
As janelas

Para a luz entrar
Nos fazer dançar
Dispersar essa neblina
Que nos paralisa

Quem sabe nem cheguemos
À mesma frequência
Caminho terno
O gelo fino de minhas histórias
Declaradas
Quem sabe tu repliques
Doces reticências
Aceito consciente
A consequência de seguir
Com minha escolha

Para a luz entrar
Me fazer dançar
Dispersar essa neblina
Que me paralisa

Hoje, "não passa disso"
Tudo tem seu momento
Uma amizade é
Alicerce bem melhor
Que um desejo cego e mudo

Todas as canções escritas e compostas por Thales Salgado, exceto onde notado:

  1. Como Pode Ser Verdade? (Letra e música de Bruno Oliveira)
  2. Vita Brevis
  3. Tudo Depende de Conforme For
  4. Depois de Crescer (Letra e música de Bruno Oliveira)
  5. Viver (Música para poema de Drummond)
  6. II de Hilda Hilst (Música para poema de Hilda Hilst)
  7. Mar de Mim (Letra e música Fabio Kulakauskas e Thales Salgado)
  8. O Princípio da Incerteza
  9. Nada Há de Novo Sob o Sol
  10. Da Espera (Música para poema de Thaís Soares)
  11. Da Escolha
          Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso dizer de novo. Não conheço o trabalho do escritor francês André Gide, no entanto, encontrei essa frase atribuída a ele e ela faz sentido. Quando escrevi a letra de Falsa Modéstia aos dezoito anos o verso o mundo todo em guerra e eu a falar de amor era mais uma conclusão de uma pessoa sem muito escopo político para articular em relação ao mundo. Ainda que influenciado por artistas como Humberto Gessinger e Renato Russo transcrever o zeitgeist nunca esteve em minhas qualidades como letrista amador. Boa parte das composições tratam de sentimentos, quase sempre em esfera pessoal. Como uma fotografia sem cores de marcos e acontecimentos que, muitas das vezes, só dizem respeito aos envolvidos.
           Da Escolha segue essa linha. Ela surgiu enquanto estava a caminho do trabalho. Letra e música vieram juntas no dia dezessete de outubro. A primeira influência que posso traçar é da canção Labirinto, presente em seu 11º álbum Campos Neutrais, lançado dia 13 de outubro. Enquanto tentava aprender a letra, outros pensamentos consumiam minha atenção. É curioso notar a menção à "Paciência" uma das canções de Lenine logo nos primeiros versos. Não por ser do cantautor pernambucano, e sim, pela parceria com Dudu Falcão ser uma das que menos me impressiona em seu cancioneiro. 
          A letra apresenta a fantasia de um eu-lírico. A razão do "refrão" não vir antes é justamente pela condução precisar passar pela "escolha". Essa ilusão do eu-lírico o faz colocar num primeiro momento "nos fazer dançar" e "nos paralisa" quando, em verdade, tudo está ocorrendo apenas em sua mente. É apenas ao final que ele individualiza a oração: "me fazer dançar", "me paralisa". A proximidade da composição permite traçar outras referências mais facilmente: a ideia de caminhar no gelo partiu de uma das cenas d'O Cavaleiro das Trevas Ressurge de Christopher Nolan. A melodia do pré-refrão conserva algo de Mesmo quando a boca cala de Vinicius Calderoni (do 5 à Seco) e o acorde de introdução me lembrou de uma composição minha de 2008 que ainda não falei aqui. Sobre um dia de junho. No momento em que harmonizava ao violão me dei conta disso, porém, como as linhas vocais são muito diferentes não julguei problema. 

***

         Faltando cinquenta e sete dias para o fim de 2017 é provável não hajam novas composições a se enquadrar no conceito "Nada Há de Novo Sob o Sol". De fato, tenho intenção de musicar a Canção de Outono de Paul Verlaine (na tradução de Onestaldo de Pennafort) mas não sentei com o violão nesta intenção até o momento. Seguindo o interesse pela lírica francesa em junho último Kariny traduziu a letra de Vivre Autrement do cantautor Arnaud Fleurent-Didier, entretanto, sigo indeciso com a forma de abordagem que devo seguir quanto a conservação do esquema de rimas da versão original, então, a menos eu não viva para contar a história, há intenções de seguir com novas composições em 2018.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Da Espera

"Agora tudo o que você pode fazer é esperar. Pode ser difícil para você, mas há um tempo certo para tudo. Tal o fluxo e refluxo das marés. Ninguém pode fazer nada para mudá-las. Quando é tempo de esperar, você deve esperar." A crônica do pássaro de corda, Haruki Murakami
Memória de Florianópolis


Música para texto publicado no dia 24 de setembro de 2016 no blog Chao Solus

Da Espera (2017)

Eu risco as paredes do meu quarto,

Eu conto os dias
Tento, em vão, juntar os pedaços
E criar qualquer tipo de rima
Quero gritar tudo que me cala,
O peso do que eu deveria ter dito
Desfazer dos meus ombros o medo
O nó do aflito
Espero, nado sabendo que vou me afogar
Espero, sacio a sede com água do mar


Eu risco as paredes do meu quarto,

Eu conto os dias...


         O arco-íris havia brotado de uma nuvem. E me acompanhou por toda a viagem. Era inútil procurar seu início ou termino. A nuvem era como uma janela para um pedaço de cor. Naquela manhã, ele decidiu que essa aparição era um sinal. Mas de quê, exatamente? Pode a maré mudar, ou qualquer vestígio de alteração é pareidolia do observador? Venho pensando em Schrödinger e seu gato. Você lança uma pergunta e, no período em que ela não vem, tem em suas mãos o sim e o não. Tudo ao mesmo tempo. 
        É o que ilustra a frase de Murakami que antecede esse texto. A questão é, como se manter em paz no período de espera? Ser a água como dizia Bruce Lee, ou melhor ser como o café reagindo à água e expandir suas moléculas e aromatizando o ambiente. Ela ama o cheiro do café e adora seu sabor. "Para mim tem que ter café", posso ouvi-la dizendo enquanto espero. Isso só está ocorrendo em minha mente, o que não torna menos real, como o prof. Dumbledore afirmou pela primeira vez há uns dez anos. 
         Chega sua vida mais pra perto meu amor, diria Simoninha. O sentimento é inominado mas as canções insistem em cantar 'amor'. O amor é apenas uma palavra, o importante é a conexão implicada por essa palavra. Como a canção Exatamente Igual da banda Nenhum de Nós que fala sobre não questionar a ausência, não lamentar o silêncio. Ter o sorriso de alguém como o ideal e não desistir. Outras canções vem e vão à mente. Quando li o poema da autora do blog Chao Solus o musiquei por instinto. Naqueles dias, já estava eu sob a sombra da espera? Seja como for, aceito consciente a consequência de seguir com minha escolha... Dizem que acreditar é o primeiro passo para que tudo dê certo.     

                 
         

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Fim


"THE MAN IN BLACK: Still trying to prove me wrong, aren't you?
JACOB: You are wrong.
THE MAN IN BLACK: Am I? They come. They fight. They destroy. They corrupt. It always ends the same.
JACOB: It only ends once. Anything that happens before that is just progress." - The Incident, Lost


Recorte do Jardim das Delícias Terrenas de Hieronymus Bosch



Fim (2011)

Somos abismos fitando o céu
Se fome, a guerra, a morte ou a peste nem sei.
Escapo ao naufrágio de vis ilusões
E acabo refém de uma tempestade
Num jardim de terrenas delicias
Defloram, corrompem, sempre acaba assim,
Esperadas condutas humanas



Olhar de espanto ante o fim dos milagres
Inquietas sombras que vem outra vez
Nas luzes desertas dos sonhos sem cor
O poente treme os passos que não tem por flutuar
E aos poucos vai se notando
Nem mesmo o corvo a dizer "Nunca mais"
Não se nota quando o túnel engole o trem



         Durante algum tempo essa composição não teve nome. Diferente de outras letras ruminadas por um longo período essa é um amálgama de referências. Não por coincidência, a letra se chamaria "referência". No fim das contas as nações unidas estão sempre prontas para a desunião a palavra intitularia uma composição posterior feita sobre um poema de Kariny Cristina. Se alguém mais inteligente disse que o segredo da criatividade era esconder as fontes, o que se pode dizer quando esquecemos as fontes? Certamente um pouco de meus gostos vazaram na letra. Lost e Dom Casmurro são os exemplos mais fáceis de descrever. 
         Outras menções, como o corvo de Poe devem ter surgido por influência da faculdade de Letras. Se há um verso que tenho certeza existia antes da letra é "O poente treme os passos que não tem por flutuar" é aquela ideia que você não quer largar de maneira nenhuma. Olhando para a letra hoje, me pergunto se conseguiria fazer algo assim ou se quero. Segue a busca por uma canção alegre, e, no entanto, é necessário colocar tudo o que foi escrito antes em perspectiva. Inclusive as elucubrações sobre a finitude.
         Nesse sentido, quando Jean Reis me mandou sua composição ele instruiu que eu escrevesse algo que fosse oposto ao que eu sentisse ao ouvir a melodia e é por conta disso a escolha temática.

sábado, 21 de outubro de 2017

Dádiva

"No mundo em que vivemos, o que sabemos e o que não sabemos são como gêmeos siameses, inseparáveis, existindo num estado de confusão." Minha querida Sputnik, Haruki Murakami
Natureza morta com livros, Vincent Van Gogh


Dádiva (2011)

Me habituei as dúvidas da vida
Se o poeta já tiver passado
No caminho que encontrei
Criarei n'alguma parte
O vislumbre aninhado de meu sonho
Sou quem não cabe em palavras
Só espere o magenta clarear
Para então desencontrar 
Essa árida fortuna
Rabiscada em rodapés sem harmonia

A vida é dádiva
A que não me habituei
Não sei pra onde me dirijo
Tampouco o motivo por que cheguei

E que os moinhos não mudem
Seu fluxo para as juras que nunca
Passaram de um descalabro

Moleskine vermelho, meados de fevereiro de 2011

        02/05/2011 data um e-mail enviado para Fabíola com essa composição. A ideia naquele tempo era que minha amiga cantasse essa música. Algo que, até este ano de 2017, não ocorreu oficialmente. Fiquei pensando nisso quando, há alguns dias atrás, ouvi o podcast Café Brasil nº580. O ouvinte Juliano Ribeiro é um músico e compositor pernambucano e ele tem um projeto chamado "A música de sua vida" (www.amusicadasuavida.com) em que compõe música com as histórias das pessoas. Para compor, escrever a letra e fazer a música ele precisa filtrar pelas referências de quem contratou o serviço. 
        Ainda a composição seja um de meus hobbies favoritos. Por vezes tento realizar projeto com empenho similar. Para ter a sensação de "entendimento" usar as ideias de outras pessoas me permite sair um pouco de mim mesmo. Então trazer uma citação atribuída a Sigmund Freud "Aonde quer que eu vá, eu descubro que um poeta esteve lá antes de mim" acabou partindo de conversas com a, então, estudante de psicologia. Assim como outras frases que ela me dissera tais "águas passadas não movem moinhos" ou "quem jura mente". Como um tatuador mescla algo de si às suas telas humanas, coloquei a palavra "descalabro" na letra como resquício de alguma entrevista do compositor Lobão vista à época. Há palavras que tão logo conhecemos precisamos usar!
         A melodia do refrão conserva algo de Don't Cry da Guns n' Roses embora não fosse uma intenção consciente. Talvez a influência de Renato Russo que adorava fazer medleys de outros compositores quando performava algumas de suas canções - a versão de Ainda é Cedo no álbum As Quatro Estações ao vivo é o melhor exemplo disso -  tenha vazado na composição. Por conta de direitos autorais, a versão voz & craviola presente neste post não apresenta o canto incidental. Mas está tudo aí! Uma das discussões que conduzem a trama o último livro de Dan Brown, Origem, é o velho conflito "de onde viemos? para onde vamos?". Nem sempre se sabe, mas a poderosa peça continua.

Em tempo! Vamos com a definição do Michaelis:
descalabro 
des·ca·la·bro
sm

  1. Estado de decadência ou degradação; ruína.
  2. Prejuízo elevado; dano, estrago.
  3. Desorganização extrema; balbúrdia, caos.