domingo, 22 de abril de 2018

Podia ouvir Drexler

"Então, (sobre Despedir a los glaciares) eu diria que essa e uma das canções mais duras que já escrevi. Porque ela fala sobre uma coisa que já não tem solução, sobre o que vai embora e o que vai se derreter. Quando você perde algo ou uma pessoa é preciso dizer adeus, e não deixar que o medo e a dor façam você esquecer de que também é importante se despedir. Mas há muitos sentimentos ali." - Jorge Drexler em entrevista à Nathália Pandeló Corrêa, para o Tenho Mais Discos que Amigos.

Jorge Drexler em foto postada em sua página no Facebook
Guarulhos, 22 de abril de 2018

         Era ano do macaco a última vez que nos vimos. Nos conhecemos num ano da serpente então, se houver janelas de oportunidade instituídas pelo ano chinês, pode ser nos vejamos em 2025. Dias atrás eu estive num show do Jorge Drexler. Acho que te falei dele no mesmo período em que vimos o Kevin Johansen. Há alguns anos, o Moska me colocou na cabeça que, brasileiros, costumamos dar as costas para nossos hermanos. Passei a ouvir alguns de seus parceiros: Nano Stern, Pedro Aznar... Em conformidade com isso meu pai chegou uma vez me perguntando de um cara ouvido na rádio dizendo hay tantas cosas yo solo preciso dos, mi mi guitarra y vos. Ali conheci o trabalho desse uruguaio, acho que já te falei isso. Pra tentar complementar algo posso dizer que busco essa autossuficiencia. O violão e a voz nunca me bastaram, será que eu demonstrei?
         Mas eu estou escrevendo, pois, creio você podia ouvir Drexler, teria gostado dessa apresentação seja quando calcado no violão ou com a banda completa. Ele contou várias histórias e interagiu com o público sempre que pode. Se ouvir os álbuns você consegue captar o bom humor, enfim, a Casa Natura fica bem próxima ao metrô então não haveriam aquelas longas caminhadas que você acabava fazendo, lembra? Eu gostava de irmos fazendo nosso mapa sem o auxílio veicular. Estávamos sempre em movimento.
    Mais de uma das músicas remeteu a conversas nossas. A música de abertura fala sobre sermos todos pais, netos e bisnetos de imigrantes. Falávamos do resultado da mistura dos lisos cabelos indígenas com o orgulho alemão ou meu sobrenome português e a falta de acesso ao sobrenome espanhol por ausência de documentação comprobatória. Assim como aquela vez à Bragança, poderíamos ir ao Uruguai de ônibus. Já ouviu falar do Cabo Polônio? Ele leva doze segundos para a luz fazer a volta completa, imagina só andar nestas condições numa noite!.. É, estou falando em andar de novo né? Que cabeça a minha. Espera, posso mudar de assunto. O Tó Brandileone do 5 a Seco subiu ao palco também. Eles cantaram Todo se Transforma. É meio Lavoisier a ideia, embora eu tenha dificuldade com isso de "nada se perde" quando a transformação não é do meu agrado. Ainda assim, falando do show, ele me deu vontade de ver algum filme de Eric Rohmer. Sempre víamos filmes mais agitados. Era escolha ou imposição do cinema hollywoodiano? Até vimos longas franceses, japoneses, nunca eram a maioria, todavia.
    Teve algo dito, não recordo se antes ou depois de Pongamos que hablo de Martinez, relativo a essa questão com o tempo levado para agradecer/homenagear alguém ser imposto pelas próprias canções. Ele levou cerca de vinte e dois anos  para desabrochasse uma. No meu caso não levei tanto tempo assim mas é inconveniente mesmo assim, afinal, você já havia mudado de cidade. Custava ter conseguido versos três meses antes? O Carpinejar disse que se não esquecemos alguém é por não termos sido sinceros quando deveríamos, o que você acha? Ter usado nosso nomes verdadeiros naquele texto não significaria nada. Você já informara de sua vida nova no dia de Iemanjá. Tem uma outra música, ele diz que embora todos creiam ter inventado algo seguem sendo as mesmas canções. É o tipo de insight que eu não alcanço. Isso me leva a assistir esses artistas que contam com seu empenho e sua pluma voadora. Inspiração, projeção, um pouco dos dois, creio. Te indicaria ouvir Telefonia mas há mais de um ano não vejo seu nome nas chamadas recebidas, vou tentar amar a trama mais que o desenlace.
     Se você se permitiu chegar aqui, podia ouvir Drexler. 
Beijos,         

Palpitar

"A questão talvez não deva ser analisada na base do certo e do errado. Há escolhas erradas que produzem resultados satisfatórios e escolhas corretas que levam a resultados catastróficos." Haruki Murakami, O Elefante Desaparece.



Palpitar (2013)

Se pacto não há
Resta-me retratar
Teus rastros como um mural de Rivera
Tocar na sua dor
Com a pureza da chama
E se quiser que atire no poema
Pois a canção é tudo
E se há coração
Ainda vive em permanente assombro

Padam Padam
Havemos de amanhecer

Meus versos sufocados
A nossa treva brilha
Eu ouço vozes, serão armadilhas?
Ainda que mal respondas
Quero tuas verdades
Pois que ninguém me rouba tua ausência!
Meus lamentos à parte
O que me importa a aurora,
Se você for mar aonde anda a onda?

Padam Padam
Havemos de amanhecer
Mas só no dia nunca igual

       Uma composição referencial. O padrão circular da melodia surgiu de uma incapacidade em sair do padrão tocado. Dessa maneira, a intenção foi tentar modular a voz inspirado em Hélio Flanders. A esta altura o terceiro álbum da Vanguart já havia saído? Se não, a proximidade com o fato tornava a ansiedade palpável. Edith Piaf possui uma famosa canção com Padam, meu uso advém da canção homônima de Benjamin Biolay. Há menções a Truth de Alexander Ebert, o que coloca esta composição na espera pelo fim de Breaking Bad. O solo de guitarra evoca brevemente John Mayer em sua fase Continuum. As conversas com minha amiga Kariny traziam poemas e, assim, algo de Quintana caiu na letra. O que trouxe Diego Rivera para a canção?

sábado, 14 de abril de 2018

A Idade da Alma

"Os objetivos que perseguimos são sempre velados. Uma garota que anseia pelo casamento anseia por algo do qual nada sabe. O garoto que intensamente deseja a fama não tem ideia do que ela seja. Aquilo que dá a cada um de nossos movimentos seu significado é sempre totalmente desconhecida para nós." - Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser.


Funerais e Sepultura e o Modo de Chorar os seus Defuntos
 Jean de Léry

A Idade da Alma (2013)

Mas era outono:
Palavras em gravidade
Amargas horas sôfregas de Ser
Na chuva, sem nome
Sobrevoo a cidade
Uma sucessão de silêncios azuis
Tuas velas, tão serenas
Adornavam nuvens de Razão

A Idade da Alma desafia Cronos
Sem lastros transmuta a seu bel prazer
E o que é preciso é aceitar
O que é preciso?

Mas já me enganara:
Estranho na própria rota
Desenho sons em gotas de sabão
Nas trevas, sementes
Florescem minha tragédia
Indigno do tento almejar
Tantas pressas ladeavam!
Claro o pensar mas turva a ação;

domingo, 25 de março de 2018

O Amor Virá

Love Will Come Through foi o terceiro single lançado pela banda escocesa Travis para divulgar seu quarto álbum de estúdio: 12 Memories. O single estreou em 22 de março de 2004. Foi composta por Fran Healy. Ainda que conhecesse os singles Sing e Side, foi apenas quando conheci a faixa Re-Offender transmitida pela MTV Latina que a banda capturou minha atenção. Mesmo minha intenção de um dia conhecer algo de canto gregoriano no mosteiro de São Bento cresceu após ouvir a canção J. Smith. O Amor Virá surgiu de minha vontade de versionar uma das canções que tem uma alegria autocontida. Gosto muito das melodias dessa banda e é uma forma de poder homenageá-los à minha maneira.




O Amor Virá
Versão para Love Will Come Through da banda Travis

Se te conto um segredo
Você guardaria pra si
Sem dizer a viv'alma?
Está a me consumir
Não consigo dormir
E mentir, levou a minha calma

Pois então,
Pegue pra si
Só cuidado 
Com a vertigem
Se o mundo não gira
O seu peito não vira
Um lugar preenchido com nada

Então leve contigo
Me leve, contigo
Baby, o amor virá
Só te espera chegar

Mesmo na encruzilhada
Em meio a estradas
Eu sinto que certo está
Se o que sinto é verdade
Não há faz de conta
Na pomba que ouço voar

Olhe o céu, e tome pra si
Só cuidado com a vertigem
Se o mundo não gira
O seu peito não vira
Um lugar preenchido com nada

Então leve contigo
Me leve, contigo
Baby, o amor virá
Só te espera chegar

O amor virá...


segunda-feira, 12 de março de 2018

Síntese - 5 a Seco

"Sou muito fã não só de 5 a Seco, mas de uma geração de criadores que está espalhada. Em São Paulo está muito evidente, tem uns dez ou doze de uma mesma geração compondo lindamente, fazendo uma música bacanérrima e tal, e isso está espalhado pelo Brasil, em todos os cantos, por isso que eu não acredito quando alguém reclama da música brasileira - a música brasileira vai muito bem, minha gente, eu tenho ouvido tanta coisa bacana, cara. O danado é que, com essa coisa do digital, tudo foi pulverizado, então não existe mais essa coisa de poucos que falam pra milhões. Não, agora é milhares falando pra milhares, é assim. Então, você tem uma dificuldade maior de achar as coisas, mas a tecnologia foi acessível demais pra todo mundo fazer seus trabalhos. Tem muita gente ali fazendo, o negócio é saber procurar” Lenine, em entrevista à André Medeiros para o Monkeybuzz em 2015


         Quando conheci o trabalho do 5 a Seco, minha primeira lembrança foi o show "Os 5 no palco" de 1998. Em que Chico César, Lenine, Zeca Baleiro, Paulinho Moska e Marcos Suzano reuniram suas individualidades musicais em uma série de apresentações declarando a força de uma, então, nova MPB. Cerca de uma década depois, a música brasileira apresentava outra renovação, essa, consolidada com Leo Bianchini, Pedro Altério, Pedro Viáfora, Tó Brandileone e Vinicius Calderoni. Todos, cantores, compositores e instrumentistas. Cantautores na melhor definição, de modo que, não haja um centro, uma força que responda acima dos outros.
         Eles chegam em 2018 declarando a "Síntese" dos elementos que compuseram suas obras anteriores Ao Vivo no Ibirapuera (2012) e Policromo (2014). Se o primeiro trazia um repertório construído na estrada e calcado nos violões, instrumento de origem de cada um deles, o segundo, gravado em estúdio flertava mais com as possibilidades do estúdio, dos timbres, das guitarras. O que sobra ao terceiro? Extrapolar a construção dos arranjos de maneira minimalista, apostando teclados em teclados e sintetizadores inquietos nos quais os ouvintes (re) descobrem as líricas e o pensamento lógico nas letras dos cinco autores.
Várias das treze canções que compõe Síntese vinham sendo apresentadas pelo grupo, tanto nas apresentações, quanto em vídeos em que os protagonistas munidos de seus violões performavam as composições em seu mínimo múltiplo comum. Olhando a repercussão do álbum em comentários no YouTube, pode se notar, que isso causou um estranhamento para parcela dos ouvintes. Para aqueles que se deixaram surpreender com o lançamento pode haver reações mistas, ainda assim, o resultado é satisfatório.
         O álbum abre com a parceria de Leo Bianchini e Vinicius Calderoni: Na Onda. Com uma letra na qual a estrofe desabrocha como numa matroska triangular (Será/Será você/Será você a sucursal do céu) pode ser cantar o lado positivo de topar com alguém que te dá sorte na vida, e aí, você agarra e não larga. O preenchimento da bateria é um destaque aqui. Pelas tantas a palavra "pasmaceira" tem um quê de Não Tem Paz, do Policromo. Um dos grandes destaques vem em seguida: Ventos de Netuno (Pedro Altério e Pedro Viáfora). A primeira estrofe "Pra poder viver o amor/Tem primeiro que se amar/Se for de verdade/Há de prosperar" já carrega significados com múltiplos, partidas que não se desejam mas nos surpreendem na vida. A guitarra, as palmas e a programação transportam para o turbilhão dessa ventania. Há pesquisas científicas apontando que as rajadas de vento em Netuno podem alcançar velocidades mais de dez vezes mais fortes que as encontradas na Terra. Quantas vezes uma pessoa pode ter uma presença igual?
         Ela, Ele e Eu é uma balada de Ricardo Teté e Tó Brandileone aos moldes de Pra Você dar o Nome. Soa a hit. Brisa é Composição de Vinicius Calderoni que versa sensível sobre a "brisa" de uma companhia de tornar feliz sem motivo. A faixa solo de Pedro Viáfora, Lua Cheia, traz uma das letras mais atuais, sobre a importância de partilhar o bem em tempos que muros são levantados e há medo, falta de alegria e ódio. É um tema presente no cancioneiro brasileiro, talvez com proeminência no rock dos anos 80, a diferença é que a proposta feita ao final (Vem cá, a lua tá cheia, vamos contar histórias...) é carregada de uma boa intenção que pode soar inocente em tempos cínicos, mas é o contraposto preciso.
O Mar Dentro da Concha vem com Leo Bianchini à frente é um groove animado com uma letra com um eu-lírico que se atrasa ao olhar "coisas extraordinárias", tais, o ato de espirrar, o gelo derreter, um clips de papel. Como quem afirma que a tecnologia das presilhas para cabelo é tão impressionante quanto a física moderna ou o mito da caverna.
         De Pedro Altério e Tó Brandileone é a sétima canção: Pensando Bem. Canção discorrendo as faltas e os "se". (Me fez pensar em O Sonho, do Policromo, e é bom constatar que, as canções evocam composições do mesmo coletivo). Tempo de se Amar carrega o assobio da canção anterior e, conceitualmente, pode trazer uma elaboração de Lua Cheia quando o eu-lírico diz que quando enfim saltou no cais e ao invés de muros viu quintais vislumbrou a felicidade. Coisas Demais, de Leo Bianchini, Pedro Altério e Pedro Viáfora é outro ponto de alto do álbum, com uma letra concisa. Dá a impressão de ter sido criada como poema e músicada posteriormente. Discorre, sobre a solidão contemporânea de multidões e silêncios e a vida que nos escapa. Depois, canção de pai e filho, Celso e Pedro Viáfora vem O Dia de Encontrar Você. (Ou muito me engano ou há ecos de Épocas?) curiosamente tensa "Eu sei que era só chamar/Só que não sei seu nome/Tem vezes que ouço assim/Tão tim tim por tim tim/Seu passo atrás de mim/Mas quando eu me viro você some" a faixa tem o trabalho vocal característico e um instrumental que instiga. 
         A trinca final começa com Maneiras e Maneiras, uma canção que me lembrou a produção do álbum Despertador de Léo Cavalcanti, pela forma como trabalha com as intervenções eletrônicas. Tem um riff de guitarra com aquela cara de Ecos do Ão de Lenine. A bateria leva muito bem até o momento do pico com o falsete. Deve ser interessante de observar como é o andamento dela ao vivo. Outra faixa com às guitarras à frente: Antídoto é uma parceria de Pedro Altério e Vinicius Calderoni e também se coloca como Lua Cheia as malezas que nos cercam "Por onde começar, não sei/Simbora descobrir/Um antídoto pra dor feroz/Que quer nos consumir". A meu ver, essa canção é o verdadeiro final do álbum. Com o brado "onde o sonho estiver, estarei". Dessa forma, Canção de Lá, de Léo Bianchini e Vinicius Calderoni soa mais como um epílogo com seus versos construídos apenas com palavras soltas. Melodicamente, é claro, ela é capaz de acalmar os ânimos e concluir a Síntese.
         A soma final é positiva, embora, em primeiras audições, alguns elementos eletrônicos soem fora de lugar, a intenção dos integrantes era renovar um som que, não fosse a inquietude, poderia ficar apenas como uma reprise do primeiro trabalho em estúdio. Quando consideradas outras bandas com uma ou duas forças criativas, o 5 a Seco aparece praticamente como uma banda de "greatest hits". Cada um dos cantautores se potencializa no crescimento conjunto e permite que a identidade do som seja pautada pela mutação. Depois de tese, antítese e síntese, o que virá?

segunda-feira, 5 de março de 2018

Vanguart em Santos

O mês de março está movimentado para a banda Vanguart. No dia 14 de março participarão de  m"Sessions 89" no Z Carniceria. Dia 17 estarão no Teatro Lauro Gomes em São Bernardo do Campo e dia 23 a banda tocará pela segunda vez no Lollapalooza Brasil, um evento com potencial para apresentar o trabalho para um novo público. Essa movimentação teve início no primeiro sábado do mês com um acústico na Arena Club na cidade de Santos. Diferente dos outros shows comentados, repassarei as canções por álbum, do último ao primeiro. Em tempo: Os títulos das composições levam à um clipe.. 
Foto de Renata Custódio @minutodoshow


Faz o que você não fez pela primeira vez

        Beijo Estranho fará um ano em abril. Com o lançamento do clipe Todas as Cores no fim de fevereiro esta se torna a terceira faixa do álbum a ganhar maior exposição. Após tocá-la, a banda relembrou de quando participaram da Virada Cultural Paulista em 2012. Àquela altura, contavam ainda dois álbuns em estúdio. Momentos dessa apresentação podem ser encontrados no YouTube. Em Eu Preciso de Você, Hélio tocou seu trompete com surdina para abrir e encerrar. Ele pontuou a presença de referências à poetas como Drummond, Walt Whitman e Hilda Hilst - se alguém souber qual é a de Hilda me contem, fiquei curioso* - e dedicou aos novos poetas que estivessem presentes. Fernanda Kostchak assumiu o microfone para agradecer a presença do público explicando as Felicidades de poder apresentar as músicas como elas surgiram. As "canções como a banda toca entre eles". Ou mesmo em Lives nas redes sociais como a recente Não Tá no Setlist ou uma em que Fernanda chegou a indicar compositores como Johannes Brahms e Gustav Mahler.
      Quando tocaram E o Meu Peito Mais Aberto Que o Mar da Bahia, houve grande comoção do público que percutiu cada um dos refrões com suas palmas. N'alguns momentos do canto, Hélio emulou um grave no melhor estilo Tim Maia. O quarteto admitiu que o "laralara", tão característico, foi a última coisa que gravaram para o disco e apenas depois de muitos conflitos sobre se deveria ou não entrar. Beijo Estranho encerrou a apresentação cantada à plenos pulmões. Com dois violões, violino e trompete a banda se mostrou em grande momento. A versão de estúdio tem um piano bem forte, no entanto, sua ausência não foi sentida. O violino seguiu causando arrepios coletivos numa música que ainda terá muito tempo de estrada.

O Que Seria de Nós?

         O álbum "divisor de águas" foi representado em peso. Muitos fãs de outrora acharam estranho o calor presente nas canções, outros tantos conheceram ali e se apaixonaram. Fato é, que em maior ou menor grau, muitos se renderam à Muito Mais que o Amor. A abertura foi com Estive. No pré-show, sucessos dos Beatles tomavam a casa. De acordo com a banda, a intenção era que entrassem no clima. O multi-instrumentista David Dafré foi apresentado como o músico que mais trocaria de instrumentos no show e com a sofisticação habitual (bandolins, violões de seis e doze cordas, lapsteel, clarinete, meia-lua, além de backing vocals! Versatilidade define). Quando tocam Demorou Pra Ser fica fácil perceber como essas canções lançadas em 2013 seguem angariando público. As letras evocam emoções identificáveis de cara. Como um casal em início de relação trocando juras: antes que eu soubesse já estava com você ou você é a vida da minha vida, por exemplo. Eu Sei Onde Você Está é sucedida por uma versão exclusiva de Reginaldo para a romântica Mesmo de Longe e ao final de Olha pra Mim, Hélio aconselha ao público guardar algumas fichas para apostar em si mesmos e não colocar todas as fichas no "outro alguém". Pelo Amor do Amor entregou à Santos dois grandes momentos. Um quase incidente no palco com Fernanda rendeu o alongamento do solo, como ouvido abaixo:


         As versões ao vivo são construções vivas e isso as torna um modelo ideal. Por mais a ouçamos nos discos, LP's ou streamings é no palco que as coisas se transformam. Como o poema declamado por Hélio em seguida:

"Um sinal do céu. Um telefone que podia tocar.
Como um dia em que, pela porta de trás da casa vazia,
Você ingressaria e me veria confuso por te ver.
Noites sozinho. Noites sozinha, lembra?
Tudo antes de ser. Eu tinha outro nome, você também.
Até que um dia te vi na rua e algo reconheci."

A menção à Valsa Brasileira de Chico Buarque dá mostras de quão abrangentes são as influências dos integrantes. Fechando os trabalhos do terceiro disco, entrou outra composição que figura na memória afetiva de muitos: Meu Sol.

O Que eu Não VIvi, eu Tô Indo Ver!

         No público, as mais diversas histórias. Haviam moradores da cidade ansiosos para rever o grupo. Havia quem estivesse à trabalho. Até mesmo quem já vivera na cidade e encontrou, no show, motivo para fazer as pazes com o lugar. Havia gente das proximidades: Itanhaém, Cubatão. Gente que precisaria correr para chegar à Praia Grande. No meu caso? Estava pela primeira vez na cidade que conhecia apenas por conta de Roberto e Erasmo, Mamonas Assassinas e Charlie Brown Jr. A questão é que centenas de pessoas estavam reunidas em virtude de admirar a arte daquele divertido quarteto no palco da Arena.


Proximidade da Plateia
         Outra parte da apresentação foi representada pelas composições do álbum Boa Parte de Mim Vai Embora. Para uns obra máxima do grupo, para outros "o disco deprê", que não deve ser nomeado.Começou com ...Das Lágrimas, primeira composição com as cintilantes linhas de Fernanda. Passando pela visceral Nessa Cidade que, como sempre, me colocou a refletir. Reginaldo comentou que no período "a gente não sofre mais nem por antecipação nem por amores que não valham a pena". Essa é justamente a questão.
        Quando se faz o juízo desse valor agregado? É preciso traçar rotas outras, forjar novas memórias em caminhos desconhecidos por aqueles que já não são dois? Além de divagar, talvez, me repito: quando do lançamento do segundo disco ela se mostrou uma das favoritas na apreciação melódico-poética. Anos depois, situações descritas na letra faziam parte de minha vida de forma que, mesmo presente no show de abertura da turnê atual no Teatro Paulo Autran, fui incapaz de escrever o que fosse relativo. Por ser, naquela noite, afetado emocionalmente. Já em Santos, o violão de doze cordas me manteve atento à nuances da música fluindo. 
         Numa matéria de Marie Eliis publicada no Medical News Today em 2013 dizia que pesquisadores no Japão concluíram que a audição de canções tristes pode levar os ouvintes a experimentar emoções ambivalentes. Uma vez que, a emoção induzida pela música, não é como a induzida por eventos pessoais. Esse pode ser um dos motivos para alguns artistas deixarem algumas composições de lado: uma vez que sua relação é direta e se entregar em canções surgidas de experiências traumáticas pode causar desconforto contrário ao êxtase do momento da criação. Voltando à Santos:
         Faixa melancólica contra a apatia generalizada Se Tiver Que Ser na Bala, Vai e ela responde muito bem ao formato, uma vez que a leveza do arranjo ressalta os três atos poéticos. As canções do segundo álbum tem daquela noção morriseyana de Rubber Ring e isso se amplifica a cada reencontro. Penúltima canção do show. Mi Vida Eres Tu é o caso da canção de melodia upbeat esperançosa e um refrão em espanhol de uma conclusão, não necessariamente, positiva. Um doce-amargo simples apenas se analisado superficialmente. Os versos de A Noite Mais Linda do Mundo de Odair José sempre surgem para nos colocar os pés no chão. Nem tudo são mágoas, tampouco flores.

O Que Importa é o Que te Faz Abrir os Olhos de Manhã

         O homônimo de estreia contou com apenas duas canções em meio ao repertório, mas não por isso menos significativas. Para Abrir os Olhos (o link é para uma gravação de 2007 do canal de Ricardo Spencer, que, entre outras afinidades dirigiu os clipes de "Mi Vida Eres Tu" e "Meu Sol".) e Semáforo. Sobre a última, Helio comentou ter sido a primeira canção que compuseram em português, antes, tinham mil motivos para não dizer a verdade. É isso. A verdade está em sempre seguirem seu caminho em frente. Como se olhar para trás os fosse transformar em estátuas de sal. A banda poderia ter investido num projeto revisionista pensando nos dez anos do primeiro de estúdio em 2017, entretanto, na contramão disso, comemoraram o pulsar da banda com um álbum que reuniu expoentes dos três primeiros e apontaram novas possibilidades sonoras. Terminar o evento em conversas informais com os integrantes da banda e do Sindicato, conhecer outros fãs (até uma próxima, Douglas) só tornou o evento mais especial. Naquela manhã todos os presentes abriram os olhos de manhã e aguardaram o anoitecer como fosse a noite do primeiro encontro. E, mais uma vez, era. 


Da Esquerda para a Direita: Reginaldo Lincoln, Claudia Almeida, Fernanda Kostchak, Thais Dias, David Dafré, Thales Salgado, Hélio Flanders e Renata Custódio

*Fui informado posteriormente pela Cláudia que o trecho de Felicidades faz menção à Do Desejo, uma série de dez poemas, lançada por Hilda em livro homônimo em 1992. 

quinta-feira, 1 de março de 2018

Felinos

"O teu dorso condescende à morosa
Carícia da minha mão. Sem um ruído
Da eternidade que ora é olvido. 
Aceitaste o amor desta mão receosa. 
Em outro tempo estás. Tu és o dono 
de um espaço cerrado como um sonho." 
A um Gato, Jorge Luís Borges 

Gato e Rato, por Maurício Nascimento

 

Felinos (2009)
Música: Bruno Oliveira

As vezes sinto pena dos caninos
Que passam noites uivando
Seguindo seus instintos lupinos
Mas vejo a situação assim:
"É tão melhor para quem é felino"
E eu não sei. Eu não sei quem sou

Mas se felina for tua intenção
De encarcerar meu coração
Eu sou felino teu
No meio das marchas da noite
Entregar-me-ei

Venha com presas avassaladoras
No fim das contas eu não vou lutar
Domine-me que seja nas masmorras
Faça-me um gato daqueles que uivam pro luar



       Há muitos gatos na História, os vistos como divindades, como objetos de sacrifício. Outros simplesmente domesticados, em parte, por seus donos. Nunca tive gatos, longe de mim mencionar algo relativo e errar completamente. Se você leu até aqui e é apaixonada (o) por gatos, comente quais são os maiores predicados desses animais. Será ótimo conhecer mais. A literatura de Haruki Murakami está repleta de gatos. Na trilogia 1Q84, há uma parte dedicada ao conto de uma cidade dos gatos, por exemplo.Em 2009, eu ainda estava longe de conhecer a obra de Murakami. Tampouco havia lido Relatos de um Gato Viajante da escritora Hiro Arikawa, uma de minhas leituras mais espirituosas de 2017. Então o que me levou a escrever um poema chamado Felinos?
       A ideia era tentar criar o senso de uma paixão tão forte que, um dos lados, não se importa em ter a própria natureza trocada. Eis aí a brincadeira entre lupinos e felinos. (I'm talking about spectacular, consciousness-altering love). A questão é, escrevi. Dediquei. E as palavras ficaram ali. Num de meus cadernos (eis a era pré-moleskine 😮) até o momento em que Bruno enviou uma linha de baixo melódica e, enquanto buscava os acordes as palavras surgiram e, como adoro dizer, foram calçadas feito luva. Apenas dois acordes se repetem por toda a canção, o que a torna perfeita para jams.




quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

MITO: O NADA QUE É TUDO

Um embate entre o monstro mítico de Mensagem e o de Os Lusíadas
(Originalmente um trabalho apresentado como parte do Curso de Letras do Centro Universitário Sant’anna na área de Literatura Portuguesa. Junho de 2011)





Pessoa, um mito à altura do mito Camões?
Nacionalistas ao extremo? Poder-se-ia dizer. O certo é que tanto Luís de Camões quanto Fernando Pessoa construíram, cada um à sua maneira e época, uma obra exaltando os valores do povo português. Suas angústias, expectativas, conquistas e mais ainda sua coragem para sobreviver aos perigos de "mares nunca antes navegados" afim de aumentar territórios, aumentar riquezas e glorificar a terra natal: Portugal. 
Camões em Os Lusíadas descreveu em dez cantos e 1102 estrofes decassílabas a viagem de vasco da Gama em busca do caminho para as Índias e pelo Ocidente. Há três ‘mitos base’ que são Adamastor, Velho do Restelo e A ilha dos amores. O mito que será utilizado nesta monografia é o de Adamastor. 
A Obra mensagem de Fernando Pessoa em questão “Mensagem” possui três partes: Brasão, Mar Português, e O Encoberto. Distribuídos em 44 poemas. A primeira e terceira parte apresentam subdivisões e a segunda parte não. O poema “O mostrengo” que será utilizado nesta monografia, faz parte da segunda parte do livro. 
O que se busca neste trabalho é analisar as semelhanças e diferenças entre as partes em questão: Adamastor é um gigante que encontra-se com a tripulação de Vasco da Gama quando estão no Cabo das Tormentas. O mostrengo é uma criatura que lembra um morcego e se coloca a assolar a tripulação de uma navegação portuguesa no mesmo Cabo das Tormentas. 
Essa é uma intertextualidade sempre citada, ao falar sobre as duas obras. Qual das duas criaturas configura-se como o monstro máximo? Seriam mesmo totalmente malignas? Estas são algumas das questões que serão levantadas nesta monografia. 

Prólogo 
Como se portar quando seu inimigo mostra-se "monstruosamente irascível"? Quando é imenso e parece gritar que é a própria "Natureza" que o quer amedrontar e a qualquer instante lhe pode levar para as profundezas sem lume?.. Camões representa através de Adamastor estes dilemas e Fernando Pessoa se vale do 'mostrengo'. 
N'Os Lusíadas, Camões, apresenta Adamastor no Canto V, quando Vasco da Gama põe-se a narrar a viagem empreendida de Lisboa até o rei de Melinde, no canal de Moçambique. O mostrengo, por sua vez, se apresenta em "Mar Português" segunda parte da obra Mensagem, de Fernando Pessoa. 

Um monstro em dois momentos ou diversas interpretações para um mesmo mar? 
Partamos de um ponto de semelhança em palavras empregadas na descrição das figuras em questão. 
Adamastor é descrito em determinado momento como "horrendo e grosso": "Com tom de voz nos fala, horrendo e grosso/ Que pareceu sair do mar profundo" enquanto o mostrengo tem as palavras "imundo e grosso" constituindo parte de sua adjetivação: "Três vezes rodou imundo e grosso". Embora uma das entidades seja horrenda e a outra imunda, há uma relação pois as palavras remetem a um campo de idéias comum, sugerindo algo repulsivo, pavoroso, ou mesmo monstruoso. A utilização da palavra "grosso" por Pessoa constitui um traço de intertextualidade consciente com o texto de Camões. 
Quanto a forma com que são caracterizados singularmente: Adamastor é uma figura de tamanho descomunal, com boca negra, dentes amarelos, barba maltratada. O tom de sua voz é profundo e causa o arrepio de todos os tripulantes : "Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,/ Que pareceu sair do mar profundo/ Arrepiam-se as carnes e o cabelo, / A mi[m] e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo. 
O mostrengo é uma figura que voa e chia e diz habitar em "cavernas que não desvendo" seus "tetos negros de fim do mundo". A semelhança que este carrega com um morcego não é gratuita. Na versão original, "Mar Portuguez" - que Pessoa publicou em Outubro de 1922, no nº 4 da revista Contemporânea - o poema se intitulava "O Morcego". Animal este, que simboliza a natureza proibida da noite. A palavra 'mostrengo' adotada posteriormente pode causar estranheza. É palavra derivada por sufixação: monstro + sufixo -engo de conotação pejorativa. Há ainda a supressão do 'n' de "mons" ficando apenas "mos", que ao compararmos com "morcego" notamos ser a alteração para a consoante subsequente na ultima consoante da silaba "mor", formando "mos". 

Três parágrafos acerca do três 
Nota-se na construção do poema de Fernando Pessoa o recorrente número três: a palavra "mostrengo" possui três silabas, o poema tem três estrofes, cada uma delas possui nove versos (o número nove é múltiplo de três). O número também é trabalhado de forma a criar ainda mais mistério em volta das ações do mostrengo. 
Lemos no poema: "voou três vezes a roda da nau", "voou três vezes a chiar", "rodou três vezes", "Três vezes rodou imundo e grosso". O três não está apenas nas ações do mostrengo. Mostra-se também nas ações do 'homem do leme' : "Três vezes do leme as mãos ergueu", "Três vezes ao leme as repreendeu", "E disse ao fim de tremer três vezes". No último verso de cada estrofe há a menção a El-rei D.João Segundo, o que faz com que , também ele, seja referido três vezes. 
O número três carrega força mística tal, que por si só poderia ser objeto de estudo em relação ao que pode significar no poema. Há a tríade de deuses egípcios Osíris, Hórus e Isis. A santíssima trindade, a ordem espiritual composta de Deus, o Universo e o Homem etc. O número três também pode simbolizar a perfeição, a totalidade. A presença deste número no poema pode sugerir a influência de Deus nas ações do homem. Decidido isso, podemos focar na comparação entre os monstros. 


De como as criaturas lidam com indesejados viajantes 
Camões optou por criar uma figura flexível. Adamastor, a principio, é uma figura completamente assustadora. Anuncia como tem lidado com todos aqueles que tentaram passar, valendo-se de ventos e tormentas desmedidas num castigo que vem sem que se aguarde. Este tom toma maiores proporções quando em determinado momento ele diz: "Antes, em vossas naus vereis, cada ano,/Se é verdade o que o meu juízo alcança/ Náufragos, perdições de toda sorte,/Que o menor mal de todos seja a morte!" Quais destinos de imensuráveis sofrimentos seriam estes maiores que a morte? Ainda que apresente tais perigos a figura de Adamastor é humanizada ao fim da passagem. Quando o monstro se mostra atormentado por um fracasso amoroso, logo, o que o motiva capaz de criar empatia para os navegantes, e consequentemente para o leitor. 
A abordagem de Pessoa para o mostrengo é única: aterrorizar os navegantes através de seu vôo ao redor da nau, seus chiados e sua própria figura. O mostrengo é fruto de um mistério: nada se explica acerca de sua vida pregressa. Ele percebe os intrusos em seu território e se coloca a tentar afugentar os navegantes. Sua abordagem tem - como a de Adamastor - efeito instantâneo, percebemos já no oitavo verso da primeira estrofe que o 'homem do leme' está a tremer no instante em que responde a criatura. Apenas a coragem dos heróis pode vencer este desafio. Sem ela, o mostrengo reinaria absoluto por aquelas áreas. Ele só pode ser vencido. Não é capaz de mudar de idéia. 


Navegando o Cabo a dentro e através 
Mais que a simples representação do Cabo das Tormentas, o Adamastor e o mostrengo podem ser interpretados como a personificação de todos os medos que os navegantes mostravam quando se punham a desbravar os mares. Sempre se soube das lendas que eram criadas pelos navegantes na tentativa de compreender quais eram os perigos dos mares e tormentas. Estes monstros fantásticos representavam um perigo palpável. O que poderia causar tantas mortes se não uma terrível criatura à espreita? Preparada para levar os homens e seus sonhos para as fossas abissais? 
As criaturas se vistas como protetoras de um caminho e apresentando um desafio ao povo português tem um papel semelhante ao desempenhado pela Esfinge Egípcia que devora os que não tem coragem, ou não estão a altura de seu enigma. As duas figuras, Adamastor e mostrengo, colocam-se contra os navegantes e apenas a coragem e a ousadia podem servir como resposta ao terror que representam. 
Vendo sob uma outra ótica, para os navegantes era primordial atender a vontade do rei, este sim, detentor de uma fúria maior que a de qualquer monstro encontrado no mar. Por isso pode ser interpretada como uma ironia o fato de a coragem de enfrentar um medo venha de um outro medo. Dizer que para um rei os fins justificam os meios é útil a esta altura? 
D.João II alterou o nome do Cabo das Tormentas para Cabo da Boa Esperança depois que Bartolomeu Dias e sua tripulação conseguiram ir além do Cabo. Essa façanha é a presente no poema "O Mostrengo". Quando, depois, Vasco da Gama no reinado de D.Manuel I, encontrou o caminho para a Índia indo além do Cabo, Luís de Camões homenageou este heróico ato n'Os Lusíadas. 


Um navegar impreciso entre dois mares do tempo 
Houve a possibilidade de observar a intertextualidade entre o poema "O Mostrengo" de Fernando Pessoa e o Adamastor presente em Os Lusíadas de Luís de Camões. Podemos concluir que foi pela existência de Adamastor que o mostrengo pode tomar vida. Uma vez que Pessoa, tendo podido buscar inspiração em seu compatriota, diluiu a influência da antiguidade clássica - fortemente presente no texto de Camões, por exemplo o próprio Adamastor baseado em um gigante mitológico - e fortifica a sua visão interior dos perigos do mar, no Cabo da Boa Esperança. 
Camões criou um personagem que aterroriza por suas proporções, mas o descreve como uma figura humana. Além disso, a força épica que Adamastor inspira vai sendo reduzida quanto mais o ser vai sendo humanizado no decorrer do episódio. Adamastor fora vencido pelo amor. Essa reviravolta acaba transitando o foco entre os conflitos do gigante e os dos navegantes. 
O poema que apresenta o mostrengo, por sua vez, tem uma reviravolta apenas no instante em que o 'homem do leme' se percebe como a confluência de energias e almas do povo português e da vontade do rei D.João II e toma em suas mãos o destino que parecia estar, até então, nos dominios do mostrengo. Nas duas primeiras estrofes, tudo que o homem é capaz de fazer é tremer e temer. O nome do rei é tudo o que consegue articular. É apenas na terceira estrofe que o poder da coragem, necessário para sobrepujar a criatura horrenda, se manifesta. Como fosse uma epifânia. É a vitória do homem sobre seus medos. A luz que oblitera as sombras. A força de Portugal é tanta, que até mesmo detentor de uma verve poética o homem do leme se mostra. 
Enfim, a emoção do episódio de Camões divide-se entre os homens e Adamastor, enquanto no poema de Pessoa o foco mantém-se no fortalecimento do espirito do homem. 

O supra-Camões 
Essa força colocada por Pessoa torna a sua criatura e a ação que a envolve mais interessante, e assim mostrando aspectos do "Supra-Camões", pois elevou ainda mais os valores e ideias que Camões propusera n'Os Lusíadas. Fernando Pessoa criou no mostrengo um símbolo máximo para o medo. Mais que uma geniosa personificação como fizera Camões. 
Encerro com uma citação que resume esta ideia de forma mais articulada, e considerando aspectos gerais das duas obras: 

"A Mensagem comparada com Os Lusíadas é um passo a frente. Enquanto Camões, em Os Lusíadas, conseguiu fazer a síntese entre o mundo pagão e o mundo cristão, Pessoa na Mensagem conseguiu ir mais longe estabelecendo uma harmonia total, perfeita, entre o mundo pagão, o mundo cristão e o mundo esotérico." (Cirurgião; 1990, 19) 


Referências 

MOISES, Carlos Felipe. Mensagem de Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 2ª edição 

CAMÕES, Luis Vaz de. Os Lusíadas. Comentário por Francisco da Silveira Bueno. Rio de Janeiro: Ediouro. 

CIRURGIÃO. Antônio. O Olhar Esfíngico da Mensagem de Pessoa. Revista 

ICALP, vol. 22 e 23, Dezembro de 1990 / Março de 1991, 74-85 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A Primeira Paixão

Foto: Renata Custódio
Eram girassóis, seus olhos.
E parecia que não mais olhariam para mim.
Aos treze, a aprovação dos colegas de classe parecia conduzir a metade de mim desinteressada pelas descobertas. Claro que a indignação da moça perante minha, suposta, brincadeira não havia passado pela minha cabeça. Mas deveria.
Nos conhecíamos pessoalmente desde a 6ª série, no ano anterior, e, até então, cultivávamos uma amizade baseada na consonância de nossos gostos por seriados norte-americanos, música estrangeira e livros.
Digo pessoalmente, pois, seu nome sempre fora mencionado pelos professores.
Ela tinha as melhores notas da classe, além de desenvoltura em público e, além disso, dançava jazz, balé e dança do ventre.
É bem capaz que eu não tivesse percebido o quanto ela fazia parte de minha vida. Então, bem mais que as aulas, meu objetivo passou a ser ter as palavras dela de novo. Mas como? Dias passavam sem que nenhum de nossos colegas em comum a demovesse da ideia de me ignorar. As amigas dela tampouco tinham interesse em interceder em meu nome. Aqueles foram dias em que descobri uma agonia que contagiava cada um de meus passos, até o momento em que decidi escrever um e-mail para ela pedindo desculpas e explicando como sua falta era sentida. E seria sempre. Por mais distante ela estivesse, meu pensamento seguiria firme na tentativa de criar laços telepáticos.
Quinze anos depois, eu não lembro quanto tempo remoí aguardando uma resposta. “Não te desculpo, é melhor fingir que eu não existo.” Era o que pensava estaria escrito, quando, finalmente o minúsculo envelope surgiu na caixa de entrada. Fiquei chocado no momento em que tomei coragem para abrir aquela carta virtual. Ela era breve e dizia não poder se prolongar. Ela viajaria no final de semana e quando voltasse deveríamos conversar.
A frase que me petrificou, no entanto, era outra. Quatro palavras inesperadas: Estou Gostando de Você.
“Nem de longe” Pensei. E fui ficando aflito. Ela já havia namorado. Eu, até onde lembrava, só tinha idealizado umas duas relações na vida e a coragem para tirá-las da esfera platônica não havia me acompanhado. Eu sentia o mesmo por ela? Gostava quando fazíamos trabalhos escolares juntos, ela escrevia e eu desenhava os projetos. Era uma forma de união, certamente. Aquela vontade de ouvi-la, paixão era isso? Considerando a importância que eu atribuía a ela, não demorei a concluir que sim.
A paixão me acompanhara na vontade que eu sentia de poder conversar de novo. Na prática, porém, isso não facilitava as coisas.
“Os meninos” não deveriam ser hábeis nestas questões? Talvez, todos eles eram dados a bravatas quanto ao que já haviam feito, ao que conheciam. Eu não ficava atrás, e, já havia contado vantagem de uma namorada imaginária, estudante de outra escola. Tinha medo de como seria essa fachada caindo. Por certo, ela seria capaz de notar a inexperiência.
Na segunda-feira após o e-mail, me lembro que ela ficou parada na porta conversando comigo quase de perfil até que um colega gentilmente me explicou que ela esperava um beijo no rosto. Mesmo os protocolos mais simples diante de uma garota me eram estranhos. Ainda assim, poder partilhar de sua companhia novamente tornara as aulas muito mais vívidas. Nossa primeira ação foi unir as carteiras escolares lado-a-lado. Naquele mesmo dia, ela entregou uma carta em que explicava que o período de silêncio a fez ver um lado carinhoso que eu normalmente escondia.
Cada uma das linhas daquela carta me deixava tremendo de expectativa, mesmo depois da terceira leitura. A folha de papel dobrada em três, num pequeno retângulo me fazia de tempos em tempos sair de dentro de casa para reler – um dos males de ter um quarto sem portas – e, em dado momento, chamou a atenção de meu pai que se prontificou a ver o que eu estava escondendo. Envergonhado por precisar mostrar algo tão íntimo e precioso, fiquei sem jeito quando ele indagou o que eu tinha nos bolsos. Ele desdobrou a folha, e, já na primeira linha se deteve e respeitou minha privacidade apenas brincando “Vi apenas o Dear Thales… avise a moça que se começar em inglês, é melhor continuar a carta em inglês.”
Minha ansiedade crescia na expectativa de que algo era esperado de mim. O receio era tanto que em algumas aulas eu andava mastigando pequenas pimentas dedo-de-moça, evitando, assim, ter um beijo roubado. Até o dia em que combinamos participar do conselho de classe. Era um pretexto para estarmos no mesmo ambiente sem a pressão do expediente escolar.
Tão logo pudemos, pegamos a primeira direita do portão da escola e nos aproximamos de um canteiro nos fundos do maior hospital da cidade. As flores e a vegetação irregular lembravam um jardim. Quais eram nossos assuntos naqueles momentos? Havia antecipação para assistir à Matrix Reloaded, lançado na semana anterior, mas isso não era tão importante quanto o instante em que minhas mãos tremulas a puxavam pela cintura e eu a vi cobrir os girassóis para nosso beijo, seguido de outro e mais um. Nada naquele dia me fez vibrar de maneira tão concreta. Era dar um salto no escuro e tropeçar em nuvens.
Algo em mim havia mudado, era possível perceber, pois, naquele mesmo dia assisti à transformação de Goku em um super saiyajin 4 pela primeira vez, algo esperado ao menos por quatro anos, e tudo o que eu pensava eram aqueles beijos. Aquela moça e em como a vida seria eterna dali para frente. Fosse numa troca de cartas, fosse em inventar pequenas mentiras para que passássemos o tempo depois da escola juntos, fosse correndo atrás de seu ônibus para aproveitar mais de seu perfume e presença, fosse tocando canções de nossas bandas preferidas pelo telefone. Pudemos viver essa intensidade por um par de anos. De alguma maneira, os resquícios desse sentimento nunca saíram de minha memória. Tanto que, quando tinha dezessete anos, ocupava meu tempo ocioso lembrando daquela moça e escrevendo poemas para ela, ainda que estivéssemos distantes.

(Texto escrito originalmente para uma promoção da Editora Intrínseca)

P.S.: Para saber mais acesse Um Conto no Jardim ou Para Ela.

Enquanto Fizer Sentido

"Sabemos todos, por experiência, quão fácil é nos apaixonar e quão difícil e belo é amarmos realmente. Como todos os valores reais. não se pode vender o amor. Há prazeres que se vendem; o amor não." Hermann Hesse, Para Ler e Guardar.






Enquanto Fizer Sentido (2018)
Letra: Barbara Barduchi e Thales Salgado

Gostaria que pudesse ver
Através de meus olhos
A extensão desse amor
Que os anos passassem me fez ver
Ainda sinto um arrepio
Banhado de ardor

Sei minhas palavras
Foram setas a te lacerar
Mesmo em fúria, "eu fiquei"
Apesar das dores que passei
Não me arrependi
Do que fiz pra estar aqui

Te quero comigo
Enquanto fizer sentido
Enquanto você inteiro
Nomear meu riso
Te amo por hoje
Se fossem pedaços
Menos da metade
Te deixava ir

Foi Deus
Quem te trouxe
Pra mim

"Gostaria que pudesse ver através dos meus olhos o tamanho do meu amor por você. Posso dizer que não sabia o que era este sentimento até te conhecer. Quis você a partir do primeiro beijo. Acredito eu, que foi pela sensações que me causou: como coração acelerado toda vez que pensava em você. Depois de quase dois anos juntos e um ano casados ainda me causa frio na barriga quando me beija com paixão.
Sei que o casamento nos fez amadurecer muito e ainda fará muitas mudanças na gente. Sei que já o feri com palavras pela dor que sentia no momento. Sei que você e eu ainda vamos errar muito durante toda nossa vida. Mas posso garantir que, da minha parte, sempre terá toda minha sinceridade e meu respeito, mesmo em meus dias de fúria.
Apesar das dores que meu coração já passou, eu não me arrependo de nada que fiz pra estar com você. Viver este sentimento me fez viva até aqui. Agradeço a Deus por ter te colocado no meu caminho, assim como pedi a ele inúmeras vezes. Antes de você chegar eu era muito menos.
Acredito que haverá um tempo que seremos tão um do outro que nada nos separará e tudo será tão mais fácil. Mas também te amo o suficiente para te deixar partir se um dia não for o motivo do seu sorriso e tua vida não fazer mais sentido ao meu lado. Te quero comigo, mas mereço você por inteiro, assim como me dou por inteira para você. Quando tiver metade e pedaços será a hora de deixar você partir. Por hoje, eu amo você." - Barbara Barduchi
         
         Seria um clichê dizer "eu nem sei bem o que é o amor". Praticamente qualquer frase tirada das gravações ao vivo da Legião Urbana se torna um clichê pela repetição. Comentei em 2016 acerca de um álbum de Moska e, nele, a última faixa transborda numa poesia falando do amor. Dentre os versos, ele diz que a morte do amor é quando, diante do seu labirinto, decidimos caminhar pela estrada reta. Cronista da ternura, Fabrício Carpinejar diz que uma linha de costura prende mais o casal do que uma corrente ou uma corda. A possibilidade de romper o nó sensível permite que os dois se olhem a todo momento para verificar se permanecem juntos. Onde quero chegar com isso?
         Há formas de amor pouco expressadas culturalmente. Um amor maduro o suficiente para considerar o próprio fim, não se enxerga todos os dias. Há uma honestidade bruta. Eis um sentimento como costuma ser renegado no cotidiano. Queremos viver as grandes histórias de amor, sentimentos que nos ponham num êxtase infindo. Quando é que nos esquecemos do famoso ditado sobre o excesso? Shakespeare que me perdoe, mas Romeu & Julieta, como diria o menestrel, perderam a noção do juízo e isso os impediu de encapsular a paixão em pílulas cotidianas. Essas sim, eternas.
         Já não me lembro quanto tempo passei ruminando as palavras de Barbara. Ela me mostrara na intenção que me inspirasse. Engraçado como as coisas são, não? Se ao falar de seu casamento inseri uma composição de seu esposo, e ela foi a pedra sob a qual erigi Nada Há de Novo sob o Sol. Certamente suas palavras me trouxeram mais próximo do que busco em Hermético como Memória. Sim, pois, ainda que a desconhecer os pormenores que a levaram a escrever, no momento em que peguei o violão tentei respeitar as palavras. Uma madrugada insone e me apropriei daquelas palavras. Se um de meus receios recorrentes é saber onde termina o sentimento e começa a ourivesaria. Nesse caso eu sabia residiam cálidos sentidos nas sentenças. 

      Qual a influência de São Valentim para nós, na América do Sul? Mesmo para historiadores sua origem é controversa. Há vários homônimos, para uns ele foi santo pois soube amar, para outros ele abençoava uniões contrariando um imperador. Mesmo a igreja católica retirou Valentim do calendário dos santos em 1969. A tradição de trocar cartões, e votos, no entanto, perdura até hoje em grande parte do mundo. Faz sentido que as palavras da esposa para o esposo venham à tona nesta data. Mais do que faria num mês de junho.
        "Enquanto Fizer Sentido", musicalmente, vem de fontes diversas. Enquanto compunha pensei em Fran Healy, Viva por Mim (de Leo Chaves). A repetição de "eu fiquei", é um eco do "quero sim" em Uma Noite e Meia, de Marina Lima. O que mais? Há sempre um mistério que me escapa. Um poeta que morreu jovem de amor e fumaça dizia que n
ão existem amores perfeitos, existem amantes acomodados. E, de acomodados, este casal de músicos não tem nada. Que cada dia contenha um brinde à eles.